Arte sensu nº 5 Páginas 4 e 5 |
![]() |
HOME | ARTESENSU
5 |
|
|
Israel Barata Leal
Segundo o romancista francês Michael
Tournier, “Uma tatuagem é um
HISTÓRIA
Em “A descendência do homem”, livro de 1871,
Charles Darwin afirmou que do pólo norte à Nova Zelândia, não havia
aborígine que não se tatuasse. Isso porque não está definida uma única
origem para a tatuagem. Ela foi inventada várias vezes, em diferentes
momentos e partes da Terra, com maior ou menor variação de propósitos,
técnicas e resultados.
Esse conceito de multinascimento da tatuagem
é explicado por alguns estudiosos como um fenômeno decorrente das grandes
migrações dos povos antigos e que, por isso, passou de um povo para outro.
Em 1991, foi encontrada uma múmia na Itália
que data de 5.300 a.C.. Esta, que é a múmia mais antiga já encontrada,
estava conservada dentro de um bloco de gelo e tinha imagens distribuídas
pelas suas costas. Além disso, ela possuía uma cruz numa de suas coxas e
desenhos tribais por toda a perna.
Registros pré-históricos mostram vestígios de
povos que costumavam cobrir seus corpos com desenhos, desenhos de figuras
humanas com pinturas em seu corpo e estatuetas humanas cobertas por imagens.
Na cultura das primeiras civilizações, as
marcas involuntárias deixadas por batalhas e lutas eram consideradas “marcas
de coragem” para quem as possuíssem. Os homens começaram a se ferir
voluntariamente para atingirem esse status de vencedor no meio de um grupo.
Com o passar do tempo essas grandes cicatrizes deram espaço a desenhos
feitos com tintas vegetais utilizando-se de espinhos para introduzi-las. A
partir daí diversos povos começaram a usar pinturas definitivas por motivos
espirituais, para guerrear e para marcar os momentos da vida biológica:
nascimento, puberdade, reprodução e morte.
Heródoto, o “pai da história” cita em um de
seus manuscritos, a existência de um povo muito antigo do norte europeu que
tinha o costume de fazer pinturas permanentes nos corpos. Eram denominados “Pictus”,
por esse costume. Eles não se tatuavam por vaidade, mas pela crença de que
seriam identificados no além-morte por seus antepassados. Outros povos como
os nativos da Polinésia, Filipinas, Indonésia e Nova Zelândia (Maori), os
Celtas e Vikings, os dinamarqueses, os normandos e os saxões também
desenvolveram seu próprio estilo de tatuagens.
Hoje em dia, a tatuagem se popularizou e é
usada pelos mais variados fins. Diariamente, milhares de pessoas de todas as
idades entram em estúdios, a fim de marcar o corpo com nomes de entes
queridos, símbolos de grupos ou instituições ou apenas, com o intuito
vaidoso de fazer do próprio corpo um grande mural artístico.
A moderna revolução da tatuagem começou no
final do século XIX, quando ocorreu uma verdadeira febre por tattoos na
Inglaterra, graças ao costume dos marinheiros britânicos. Até mesmo o rei
Edward VII tatuava o corpo com freqüência, tendo deixado explícito, antes de
morrer, o desejo de que os seus filhos também fossem tatuados. No início da
sua vida, o filho de Edward, o rei George VII, ordenou a seu tutor que o
levasse a um estúdio no Japão, para ser tatuado pelo mestre Chiyo, a maior
autoridade local.
Mas desde então, a alta sociedade,
preconceituosamente, já costumava associar o uso da tatuagem com o consumo e
a venda de drogas, a criminalidade e à homossexualidade.
UMA VISÃO SOCIOLÓGICA
Segundo o psicólogo francês Jean-Luc Sudres,
a tatuagem “é uma espécie de vestimenta que não é retirada. A ela se
misturam a sedução, a provocação, a parte de estima por si mesma que é o
sinal de uma vinculação social”.
Este ato, na maioria das vezes, está ligado a
acontecimentos da vida, sejam eles bons ou maus, variando de sucessos a
perdas. Nos jovens e adolescentes, um dos motivos que os levam a se tatuar é
o da busca por sua originalidade, unida com o desejo de submissão ao modismo
típico da idade. A vontade de ser “dono do seu próprio nariz”, leva muitos
jovens aos estúdios para “gritar a sua independência” marcando seus corpos
para sempre. Problemas são criados quando essa atitude é tomada por impulso
e posteriormente gera arrependimento. Como é de conhecimento público, a
remoção de uma tatuagem só é possível com um tratamento longo e caro. “As
pessoas que se fazem tatuar não parecem estar preocupadas com o que
acontecerá com o passar do tempo, com o envelhecimento da pele. Aliás, não
existe nenhuma pesquisa sobre esta questão”, comenta Jean-Luc Sudres.
A escolha da imagem a ser gravada tem um
caráter muito peculiar. Os psicanalistas dizem que a pele exerce um papel
especial na mente. Para Freud, se trata de uma projeção do ego. Segundo a
psiquiatra infantil e psicanalista Nicole Péricone, “talvez isso corresponda
também ao fato de que a palavra perdeu seu lugar no campo da comunicação.
Quando as pessoas optam por se fazer gravar um desenho na pele, é porque
elas precisam complementar alguma coisa para então passar ao outro”,
identificando assim, um desenvolvimento narcisista.
O culto ao corpo é uma das características
mais marcantes da sociedade contemporânea. Nessa socialização insere-se a
modelagem dos corpos pelas normas, representações culturais e simbólicas
próprias de cada sociedade. Nesse sentido, o corpo se torna o laço da
interação entre o indivíduo e o grupo, a natureza e a cultura, a coerção e a
liberdade.
Em seu trabalho As Técnicas Corporais, Marcel
Mauss evidencia que toda a sociedade, em qualquer tempo e em qualquer lugar,
sempre desenvolveu modos eficazes e tradicionais de se trabalhar o corpo do
ser humano. Desde a educação do sentido até às técnicas simbólicas, o corpo
sempre foi alvo de manipulações físicas e simbólicas no interior das
sociedades.
O corpo não se revela apenas enquanto
componente de elementos orgânicos, mas também enquanto fato social,
psicológico, cultural e religioso. Está dentro da vida cotidiana, nas
relações de produção e troca, é um meio de comunicação, pois através de
signos ligados à imagem, gestos, roupas e instituições as quais pertencemos
permitem nossa comunicação com o outro. O corpo é um lugar que institui
idéias, emoções e linguagens, sendo uma interação sensório-motora dos
sentidos à ação.
No período renascentista, a concepção de
corpo, difere dos períodos anteriores, pois começa a haver preocupação com a
liberdade do ser humano. Acontece a redescoberta do corpo, principalmente,
no que diz respeito às artes onde o corpo nu aparece como destaque por
pintores como Michelangelo, Da Vinci, entre outros.
Estamos assistindo neste inicio de século
XXI, especialmente nos grandes centros urbanos brasileiros, a uma crescente
glorificação do corpo, sua exibição pública é cada vez maior, deixando
transparecer o que antes era escondido e mais controlado. Para Mirian
Goldenberg & Marcelo S. Ramos, em Nu e Vestido, as regras da atual exposição
dos corpos, parecem ser fundamentalmente estéticas, sendo que, para atingir
a forma ideal e expor o corpo sem constrangimentos, é necessário investir na
força de vontade e na autodisciplina.
“O corpo está a serviço, portanto, da
produção que o domina, utilizando-se da ilusão de fazê-lo belo e forte”,
aponta Nísia M. Rosário em Mundo Contemporâneo: Corpo em Metamorfose. Novas
formas de pensar o corpo têm sido reinventadas constantemente, num processo
que vem alterando significativamente a relação que os indivíduos têm com seu
corpo.
Hoje se vive a revolução do corpo, valores
relativos à beleza, saúde, higiene, lazer, alimentação, atividades físicas
tem reorientado um conjunto de comportamentos na sociedade, criando um novo
estilo de vida, mais livre, narcísico e hedonista.
O corpo ocidental se encontra em plena
metamorfose. Não se trata mais de aceitá-lo como ele é, mas sim de
corrigí-lo, transformá-lo e reconstruí-lo. O indivíduo busca em seu corpo
uma verdade sobre si mesmo que a sociedade não consegue mais lhe
proporcionar.
Esse contexto social e histórico
particularmente instáveis e mutantes, no qual os meios tradicionais de
produção de identidade, tais como a família, a religião, a política, o
trabalho, se encontram enfraquecidos, impulsiona pessoas a se apropriarem
cada vez mais do corpo como um meio de expressão (ou representação) do eu.
Pode-se citar atualmente, como apropriação
exagerada do corpo, à difundida ideologia do body building, ou,
simplesmente, “cultura da malhação”, que se fundamenta na concepção da
beleza e forma física como produtos do trabalho de um individuo sobre seu
corpo, assim como a body art e a body modification, que utilizam técnicas
que vão de tatuagem, passando pelos piercings e podendo chegar a outras mais
extremas, como marcas a ferro quente, talhos de navalhas e gravações com
bisturi incandescente.
A mídia, de acordo com Goldemberg & Ramos
(2002), apresenta o corpo como um objeto a ser reconstruído, seja em seus
contornos ou em gênero. Através de mecanismos de incorporação de
estereótipos corporais, o corpo torna-se uma superfície virtual, um terreno
onde são cultivadas as identidades sexuais e sociais. Saturado de
estereótipos, ele aparece como um quadro inacabado e transforma-se em imagem
do corpo, torna-se assim um objeto de autoplastia.
Fonte:
“Corpos em Metamorfose: Um Breve olhar Sobre
os corpos na História,
e Novas Configurações de Corpos na
Atualidade”, de Maria Cristina
Chimelo Pain, professora da ULBRA RS.
http://www.portaltattoo.com/tatuagem/historia/
Http://www.tattooshow.com.br/content/view/46/241/
|
|
HOME | ARTESENSU 5 |
|