Arte sensu nº 5

Páginas 8 e 9
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Episódio dois

Lurildo R. Saraiva
Prof.º do Departamento de Medicina Clínica da UFPE

 

Dando seqüência ao emocionante relato, iniciado no
Arte Sensu nº 4, o professor Lurildo Saraiva resgata mais
uma parte daquele período - não muito distante - em que a
 repressão da ditadura silenciou alguns dos mais bravos
lutadores pró-democracia no estado de Pernambuco.
Uma época marcada pela dor, revolta e coragem.
Lembranças adormecidas de muitos contemporâneos
do autor que, como a professora Gilda Lins
(leia a carta enviada à ADUFEPE), revivem aqueles dias,
 compartilhando com Lurildo as duras recordações.

          De como figuras políticas proeminentes e o cônsul americano em Recife recebem mensagem de Dom Helder Câmara.

          Em 1968, a morte do estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto, a 28 de março, constituiu-se em marco divisor, a partir do qual a ditadura de 64 se tornaria mais dura e a resistência estudantil mais intensa. A repressão às missas de sétimo dia, em quatro de abril, ocorrida no Rio de Janeiro, Recife e Goiânia atingiu o coração do clero católico, que, com raras exceções, como as de Dom Helder Câmara, Dom Antônio Fragoso, em Crateús, Ceará e Dom Valdyr Calheiros, no Estado do Rio, se mantinha alheio ao que ocorria nas capitais de todo o país. Contrariava as determinações do Concílio Vaticano Segundo e do próprio Papa “operário” Paulo VI.
          No crescendo dos protestos, que se disseminaram, a envolver intelectuais, como Tristão de Athaíde, artistas, profissionais liberais, escritores, como Antonio Callado e Carlos Drummond de Andrade, e professores universitários, as passeatas se tornaram mais freqüentes, mais ruidosas e mais reprimidas. O poder militar ainda guardava certo pudor e um pequeno resquício de democracia se mantinha de pé no  Congresso Nacional mutilado e em jornais, como O Correio da Manhã, do Rio, que logo depois seria forçado a fechar.
          A prisão humilhante imposta a estudantes da UFRJ, no campo do Botafogo, mostrada em jornais, em ato traiçoeiro do seu Reitor que prometera liberá-los, após manifestação no interior da Reitoria aumentou a indignação da Nação. Foram, então, permitidas grandes manifestações de rua, afinal, a frase “poderia ser um filho seu”, referida ao estudante assassinado no Calabouço, com 17 anos, tocou a sensibilidade da classe média. Seria um momento inesquecível dessa etapa da luta, a “Passeata dos Cem Mil”, na Guanabara, em 26 de junho, onde se destacaram Chico Buarque, Edu Lobo, Norma Benguell, Odete Lara, Clarice Lispector, Tônia Carrero, Paulo Autran, entre tantos. Os líderes estudantis, de maior destaque, eram José Travassos e José Dirceu, de São Paulo e Vladimir Palmeira, da Guanabara, os dois últimos com egos imensos, e por isso, jamais se entenderam.
          Pouco se fala sobre a grande passeata havida em Recife, com a presença de 20 mil pessoas, nas Avenidas Conde da Boa Vista e Guararapes. Com grande alegria, trabalhamos intensamente pelo seu sucesso, fazendo cartazes e faixas em todos os Diretórios Acadêmicos. Na JUC, foi combinada a panfletagem de igrejas nas missas dos domingos, que precederam ao ato: Dom Helder Câmara resolveu dar integral apoio e escreveu mensagem, em nome da Arquidiocese, que transformamos em panfletos, explicitando esse gesto tão nobre há anos procuro um exemplar: naqueles tempos difíceis, éramos obrigados a destruir inúmeros documentos, quando das ondas repressivas, que teriam, hoje, grande valor histórico.
          No domingo, que precedeu o dia da manifestação, saí de casa muito cedo e me dirigi à Capela de Fátima, no Colégio Nóbrega. Residia ali o meu conterrâneo, Paulo - Francisco de Paula Falcão e Castro - depois meu cunhado, que participou do esquema de união dos frades dominicanos à Aliança Libertadora Nacional, de Carlos Marighella, em São Paulo e no extremo sul do país. Precisava de alguém que me auxiliasse e ele me indicou o seu irmão, Aluísio, que morava consigo e que prontamente aceitou.
          O celebrante da missa das oito horas foi o Padre Maurice Parant, que veio da França, atraído por Dom Helder, sendo o criador e responsável pelo trabalho pastoral com prostitutas e domésticas. De posição esquerdista, o sacerdote nos autorizou a distribuir os panfletos, o que fizemos com relativa rapidez: havia sempre o perigo de algum agente do DOPS encontrar-se em qualquer recinto, inclusive em missas, no interior de igrejas. Recordo-me, particularmente, da grande ansiedade de um outro seminarista, o Chico, a fumar intensamente, que nos acompanhou do coro, assombrado.
          O religioso nos indicou, em seguida, a Igreja de Nossa Senhora, no Pátio do Terço, onde haveria missa às dez horas da manhã. Ao alcançarmos o local, notamos a presença de pequeno contingente de soldados, a proteger autoridades que chegavam. Não foi difícil descobrir que, naquele dia, ocorreria o casamento de uma grã-fina, sendo uma das testemunhas, Nilo Coelho, há pouco “eleito” Governador do Estado pela ARENA, depois de acirrada briga com o General Antônio Carlos Muricy, Comandante da Sétima Região Militar, em que houve lances humorísticos, descritos por Paulo Cavalcanti, no seu livro “O caso eu conto como o caso foi”.
          O que fazer? Se tentássemos distribuir os panfletos, seríamos presos, certamente. À espera do Governador, no pequeno átrio da Igreja, estavam o Secretário de Governo, Marco Maciel, o Reitor da UFPE, Murilo Guimarães, e o cônsul norte-americano Donor Lyon, que conversavam. Pouco tempo depois, chega o Governador, acompanhado por séqüito de bajuladores, como é do hábito dos que circundam o Poder.
          Enraivecido, não tive dúvidas, em gesto que se transformaria em vitória de Pirro: combinei com o Aluísio que eu daria um exemplar ao Secretário e ele, outro ao cônsul. Do meu companheiro, não sei, quanto a mim, chegando próximo ao Marco Maciel, disse-lhe: “uma mensagem de Dom Helder! Abaixo a ditadura!” Criado pequeno tumulto na calçada da igreja, neste exato momento chega um automóvel disfarçado do DOPS, com quatro agentes à paisana.
          Aqui, eu e o Aluísio divergimos na memória: para mim, foi dada ordem de perseguição, para ele, o medo ampliado fez com que nos puséssemos a correr alucinadamente em direção à Praça Sérgio Loreto, naquelas ruas vazias do Recife antigo, sobretudo em manhã de domingo. Nesta doidice, jogamos fora uma boa quantidade de panfletos, que trazíamos, prejudicando a difusão da passeata. Como forma de despistar a polícia, tomamos uma condução para Afogados (táxi?) e dali, uma outra para o Colégio: juntos a Paulo e ao ansioso Chico, todos sossegados agora, pudemos rir uma gostosa risada quase adolescentes ainda, eu com 21 anos, desconhecíamos o sentido da palavra perigo, mas conhecíamos bem, ao contrário dos dias correntes, o sentido de “missão a cumprir”.
          Na quarta-feira, ocorreu a passeata, um grande sucesso naquele tempo, saudada por milhares de pedaços de papel picado, lançados do alto dos prédios. E, de peito lavado, pude andar, aparentemente livre nas ruas do Recife, levantando bem alto o cartaz que pregava: “Abaixo o imperialismo americano!”

Era um momento ainda ameno naquele ano de 1968, o quarto da ditadura militar.

(de “Água braba”, Lurildo R. Saraiva)

 

Lembranças em comum

      Colegas organizadores do Arte Sensu,

      Embora pareça tarde demais, quero manifestar meu apreço pela revista/jornal Arte Sensu e, especialmente, tecer alguns comentários/reflexões sobre a matéria Água braba, de autoria do Prof. Lurildo R. Saraiva, junho/2006, n.4, p.8-9.
      Que beleza! Também vivi e revivi aquele dia 28 de maio de 1969. Estava concluindo meu curso clássico e preparando-me para o vestibular, fazia parte do movimento JEC - Juventude Estudantil Católica, cuja direção vinha contida em três palavras de extrema grandeza - VER/JULGAR/AGIR. E, naquele dia, da Igreja do Espinheiro ao Cemitério da Várzea eu era um na multidão que acompanhava o funeral do Padre Henrique.
      Juntos, cantávamos, com força, vibração, como um grito de revolta e de esperança " Prova de amor maior não há/ Que doar a vida pelo irmão...".
Sim, o canto chega à Rua Conde de Irajá, como me lembro Dr. Saraiva! Como me lembro! Mas, o pior: no cruzamento daquela rua com a Visconde de Albuquerque, "o cortejo é obrigado a parar", viva lembrança, viva correria, viva, hoje, a coragem de dizer de público, encorajada pelo articulista - a minha intenção primeira foi correr, com medo, medo dos cavalos, medo dos soldados que os conduzia, o corre-corre.... Alguém segura minha mão e diz: fiquemos firmes, a obra de Deus não deve ter medo.
      Dom Hélder está conosco. Agüentei firme. Passado tudo, coloquei-me diante de Deus, de Pe. Henrique e chorei, chorei por tudo, chorei pelo impulso da covardia. Benditas sejam as mãos que me seguraram! Uma colega, que levava no sobrenome Burity, será? Seu nome Gláucia, será? O tempo e a ausência física no tempo me deixam em dúvidas, mas, com certeza a atitude e o perfil continuam comigo. Mais adiante, o profeta DOM, mais uma vez, nos alenta com seu olhar de paz misturado com o sofrimento. "Amai-vos uns aos outros/como eu vos tenho amado", o canto prossegue cada vez mais forte, corajoso, lindo. Só quem viu e viveu pode tentar rever e reviver, como tão bem o fez o médico Dr. Saraiva.
     É, aquela quarta-feira, 28 de maio, "certamente me acompanharia pelo resto da vida". E o Professor, nesse seu texto, me faz recordar e querer juntar-me a ele, como fizemos pela Comissão de Direitos Humanos Dom Hélder Câmara do Centro de Artes e Comunicação da UFPE, anos passados, levando para a juventude universitária testemunhos do amor maior de Pe. Henrique pelos jovens e pelo Evangelho.
     Obrigada, Prof. Lurildo. Obrigada por ter me dado a oportunidade de reviver, agora corajosamente, uma morte que foi vida porque a morte é vida quando a vida não foi morte. Exemplos como o de Pe. Henrique, de Dom Hélder e de tantos outros mártires do amor maior, devem ser relembrados sempre como semente que semeada brota e dá bons frutos.

Gilda Lins - Comissão de Direitos Humanos Dom Hélder Câmara/Professora do Centro de Artes e Comunicação da UFPE

Este bônus, em imagem rara pessoal, foi vendido pela UNE em todo o Brasil,
para o Seminário contra a política educacional do Governo Militar,
baseada no "Relatório Meira Matos", que previa "reforma" universitária,
com aspectos parecidos a da atual, ora em curso, sob o o patrocínio do
Acordo MEC-USAID. O dinheiro arrecadado serviu de lastro, também,
para o famoso Congresso da UNE de Ibiúna, em São Paulo, fracassado,
ocorrido em outubro daquele ano de 1968. Todos os DAs do país
colaboraram freneticamente com a sua venda.

 

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