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RECIFE - História de lutas e sonhos
Antônio Paulo de Morais Rezende
Professor do Departamento de História/UFPE
O professor Antônio Paulo tem
experiência na área de História, atuando nos seguintes temas: história,
cultura, imaginário, modernidade e cidade. Atualmente coordena o
Programa de Pós-Graduação em História e lidera o grupo de pesquisa
Cultura, Memória e Modernidade, CNPq.
O Arte Sensu convidou o professor para falar sobre a solidão no Recife
dos anos 20 e 30, tema de sua pesquisa.

Em seus trabalhos, os labirintos e a solidão chamaram nossa atenção.
Qual seria o significado dessas palavras em suas pesquisas?
A melhor representação da história é a do
labirinto. Há uma saída ou várias saídas, mas, infelizmente, elas nos
levam para outras buscas que não cessam. A vida é inquietude, somos
seres marcados pela dimensão do que não se completa. É a nossa condição,
complexa e desafiante. Não há resposta clara para ela.
A solidão nos acompanha, faz parte da construção da vida e da cultura. É
um mergulho, um ato de estranhamento necessário para entender as
diferenças dos nossos diversos tempos e lugares. Mas ela não
necessariamente significa sofrimento, condenação. A solidão pode
significar autonomia, vontade de maravilhar-se com os muitos mistérios
que existem. Daí o recolhimento para melhor observá-los.
O que você descobriu nos registros históricos da solidão no Recife dos
anos 20 e 30?
Há mudanças importantes com a
modernização da cidade. Os inventos modernos interferem nas práticas
sociais. Há uma grande ambigüidade: muitos fogem das tecnologias e
outros se deslumbram. Esse processo se agudiza, mais ainda, com a
pós-modernidade e pode criar dificuldades para construção de uma
sociedade solidária. Transformamos as pessoas em coisas e as coisas em
pessoas. Os perigos do fetiche da mercadoria tumultuam a afetividade e
produz síndromes destruidoras da coragem para viver a aventura humana. É
preciso se desfazer do utilitarismo, do vazio entranhado na sociedade
capitalista, fantasiado pelo consumo.
O que mais te fascinou no passado recifense?
Não trabalho com a dimensão do fascínio e não idealizo o passado.
Procuro ver como as permanências e as mudanças interagem, suas máscaras
e mesmo suas ludicidades. A história é uma constante ressignificação,
vivida na relatividade. A eternidade não existe para quem tem história,
mas sua idéia funciona como a nossa utopia maior. Inventamos deuses e,
para isso, temos uma criatividade incomensurável.
Em paralelo com o presente, o que você traria do passado para este
século?
O tempo não deve ser visto de forma
linear. Os tempos se misturam. Criar hierarquias é empobrecê-los.
Qual a sua pesquisa atual, continua na linha histórica do Recife?
Continuo trabalhando com as aventuras da
afetividade, como elas se alteram e alteram as práticas sociais. Gosto
de uma história que faça refletir, que tenha corpo e vida e não seja uma
seleção de documentos. Gosto de uma história que provoque conversa e não
apenas devaneios acadêmicos e vaidosos.
Qual a importância do prêmio História Viva do Recife?
É sempre bom o reconhecimento. O mundo se
firma quando podemos comunicar alguma coisa. A solidão, quando bem
vivida, nos prepara para outro, para autonomia.


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