Arte sensu nº 6

Páginas 10 e 11
HOME | ARTESENSU 6
 

RECIFE - História de lutas e sonhos

Antônio Paulo de Morais Rezende
Professor do Departamento de História/UFPE

O professor Antônio Paulo tem experiência na área de História, atuando nos seguintes temas: história, cultura, imaginário, modernidade e cidade. Atualmente coordena o Programa de Pós-Graduação em História e lidera o grupo de pesquisa Cultura, Memória e Modernidade, CNPq.
O Arte Sensu convidou o professor para falar sobre a solidão no Recife dos anos 20 e 30, tema de sua pesquisa.

Em seus trabalhos, os labirintos e a solidão chamaram nossa atenção. Qual seria o significado dessas palavras em suas pesquisas?
A melhor representação da história é a do labirinto. Há uma saída ou várias saídas, mas, infelizmente, elas nos levam para outras buscas que não cessam. A vida é inquietude, somos seres marcados pela dimensão do que não se completa. É a nossa condição, complexa e desafiante. Não há resposta clara para ela.
A solidão nos acompanha, faz parte da construção da vida e da cultura. É um mergulho, um ato de estranhamento necessário para entender as diferenças dos nossos diversos tempos e lugares. Mas ela não necessariamente significa sofrimento, condenação. A solidão pode significar autonomia, vontade de maravilhar-se com os muitos mistérios que existem. Daí o recolhimento para melhor observá-los.


O que você descobriu nos registros históricos da solidão no Recife dos anos 20 e 30?
Há mudanças importantes com a modernização da cidade. Os inventos modernos interferem nas práticas sociais. Há uma grande ambigüidade: muitos fogem das tecnologias e outros se deslumbram. Esse processo se agudiza, mais ainda, com a pós-modernidade e pode criar dificuldades para construção de uma sociedade solidária. Transformamos as pessoas em coisas e as coisas em pessoas. Os perigos do fetiche da mercadoria tumultuam a afetividade e produz síndromes destruidoras da coragem para viver a aventura humana. É preciso se desfazer do utilitarismo, do vazio entranhado na sociedade capitalista, fantasiado pelo consumo.
O que mais te fascinou no passado recifense?
Não trabalho com a dimensão do fascínio e não idealizo o passado. Procuro ver como as permanências e as mudanças interagem, suas máscaras e mesmo suas ludicidades. A história é uma constante ressignificação, vivida na relatividade. A eternidade não existe para quem tem história, mas sua idéia funciona como a nossa utopia maior. Inventamos deuses e, para isso, temos uma criatividade incomensurável.


Em paralelo com o presente, o que você traria do passado para este século?
O tempo não deve ser visto de forma linear. Os tempos se misturam. Criar hierarquias é empobrecê-los.

Qual a sua pesquisa atual, continua na linha histórica do Recife?
Continuo trabalhando com as aventuras da afetividade, como elas se alteram e alteram as práticas sociais. Gosto de uma história que faça refletir, que tenha corpo e vida e não seja uma seleção de documentos. Gosto de uma história que provoque conversa e não apenas devaneios acadêmicos e vaidosos.

Qual a importância do prêmio História Viva do Recife?
É sempre bom o reconhecimento. O mundo se firma quando podemos comunicar alguma coisa. A solidão, quando bem vivida, nos prepara para outro, para autonomia.


Clique na imagem para ampliar

 

HOME | ARTESENSU 6