Arte sensu nº 6

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Maratona de Paris

Roberta Uchôa
Professora do Departamento de Serviço Social / UFPE

Domingo, 15 de abril de 2007, às 08:45 da manhã, cerca de 35 mil corredores, aos pés do Arc du Triomphe, em plena Avenue des Champs-Élysées, deram início a 31ª edição da Marathon de Paris. Eu e mais 446 brasileiros formávamos a 7ª delegação estrangeira presente à prova. Passaram-se mais de 10 minutos para que eu atingisse a linha de largada e começasse a correr. Tempo este suficiente para rever os planos de corrida, conter a emoção e apreciar o céu azul sob o coração de Paris, tomado pela multidão de corredores, todos com um único objetivo: completar 42kms e 195 metros até a linha de chegada. Na minha terceira maratona internacional, mais uma vez vestida com a camisa nº 9 da seleção brasileira de futebol, cruzaria de oeste a leste e de leste a oeste, sempre na Rive Droite, a cidade mais bela do mundo.

Após contornar a Place de la Concorde, a Rue de Rivoli se abre aos corredores e vai a cada instante revelando as belezas da cidade: Jardin de Tuileries, Palais Royal - Musée du Louvre, Tour Saint-Jacques e Hôtel de Ville. Já na Rue St Antoine, Le Marais e ao final, a Place de la Bastille e L'Ópera Bastille. Há quase 10 anos, fiz este mesmo percurso em sentido inverso, acompanhando uma multidão de franceses que comemoravam a copa do mundo de 1998. Apesar da tristeza pela derrota do Brasil e a preocupação com meu ídolo, Ronaldo, confesso que adorei aquela festa.

Depois da Place de la Bastille, o percurso segue pela Rue Foubourg St Antoine, Place de la Nation, passando pela Porte e Cours de Vincennes até chegar ao Château de Vincennes, quando tive uma ótima surpresa. Uma orquestra de metais, aparentemente composta por franceses, tocava, acreditem, o hino do Bloco Ceroulas de Olinda: “eu vou este ano à lua, não é privilégio foguete já tem [...] pampampampam, pamramram, pamramram, pamramram, pamramram, ...”.

Os próximos quilômetros foram muito tediosos para uma pessoa urbana como eu, que curte a natureza, mas gosta de apreciá-la apenas pela TV. Os ecologistas que me perdoem, mas os quase 11kms dentro da Bois de Vincennes foram uma overdose de natureza.

Completada metade da prova, percorre-se a Rue Chareton e a Avenue Daumesnil, tomadas pelos espectadores incentivando os corredores: “Allez Brésil, Allez Ronaldô, Allez Robertá”. Depois, mais uma vez contorna-se a Place de la Bastille, agora na direção do La Seine. Neste trecho da prova, amigos brasileiros me localizaram na multidão e festejaram minha passagem. No quilômetro 25, na Quai des Célestins, avista-se a Ile St Louis e a expectativa de margear o rio pelas quais do La Seine até a Tour Eiffel, deu ânimo para continuar firme na corrida. Mas, infelizmente, este trecho da prova é feito na margem inferior do rio nas voies, com seus tunnels e souterrains. Perde-se toda a vista da margem do Rive Droite e parte da vista do Rive Gauche. Por onde estava passando não dava para contemplar a Notre-Dame, Conciergerie, Musée d'Orsay, Esplanade des Invalides, Palais Chaillot e Trocadéro.

Quando a Tour Eiffel aparece é momento de muita concentração, pois chega-se ao quilômetro 30, the wall, tão temido pelos corredores. Hora de tomar o segundo suplemento de carboidrato em gel. Para minha satisfação, apesar do calor de cerca de 27º C, estava bem fisicamente e com um bom tempo bruto de prova: 03:20'. A Tour Eiffel, enfim, fica para trás e entre as Avenue du Président Kennedy e Avenue de Versailles, aparece a Maison de Radio-France, uma imponente e elegante construção projetada na década de 1950. Até o quilômetro 35 percorre-se diversas ruas e avenidas tipicamente parisienses, com pequenos comércios e prédios residenciais com gradis e pequenas jardineiras coloridas pelo sol de primavera.

Nos 07 quilômetros finais da prova, ao entrar na Bois de Bologne, não consegui mais manter o ritmo de corrida. A umidade do bosque dava a sensação térmica de mais de 30º C. Nos postos de hidratação, despejava 3, 4 garrafas d'água na cabeça, mas nada aliviava o calor e parecia que teria uma síncope. A mente brigava com o corpo e o desejo. Queria continuar correndo, não andar. Mas nesta hora, prevaleceu minha porção terra, capricorniana: diminuí o ritmo, andei e trotei para terminar a prova. A Bois de Bologne parecia interminável e os últimos quilômetros foram de puro sofrimento.

Quando finalmente aparece a Place de la Porte Maillot, me encho de energia e volto a correr. Ao contornar esta praça, ressurge o Arc du Triomphe, ao fundo da Avenue Foch, uma das mais elegantes e caras avenidas residenciais de Paris, indicando o final da maratona. Como das vezes anteriores, cruzar a linha de chegada e colocar a medalha de participação no peito foi uma explosão de alegria. Apesar da mudança nos planos de corrida, completei a prova com meu melhor tempo em maratonas: 04:45':23”.

Na chegada, reencontrei alguns corredores brasileiros, todos novos amigos, cúmplices daquela jornada. Como queríamos prolongar e compartilhar nosso prazer, sentamos em um dos canteiros floridos da Avenue Foch e deixamos a vida nos levar. 

Fotos: Marcio Carrilho
 

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