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Verde que te quero público.
Denis Bernardes
Departamento de Serviço Social.
A
conquista de espaços públicos, geridos pelo Estado, para uso de todos
sem distinções sociais e integrantes do patrimônio da nação em seus
diversos níveis foi, no Ocidente, uma conseqüência direta da Revolução
Francesa. De imediato muito do que era até então patrimônio da realeza,
da nobreza ou das ordens religiosas foi transformado em bens nacionais
postos ao usufruto da sociedade. Um exemplo disto, entre inúmeros
outros, foi a transformação do magnífico jardim do Palácio do
Luxemburgo, mandado construir por Maria de Médicis para sua residência,
em um jardim público no coração de Paris.
A partir do exemplo francês, por todo o mundo um processo semelhante
ocorreu. Na raiz do mesmo estava e está a idéia da cidadania e do papel
do Estado como garantidor de direitos que se propõem universais. Também
faz parte deste processo o crescimento urbano que acompanhou o
desenvolvimento do capitalismo e a afirmação de uma cultura e de uma
sociabilidade burguesa, contra a cultura e a sociabilidade aristocrática
do Antigo Regime.
No Brasil estes valores foram acolhidos desde a fundação do Estado
nacional. Em épocas diversas, cada capital das antigas províncias e
depois estados, bem com cada cidade ou vila de alguma importância
sentiu-se no dever de instalar passeios públicos, praças e parques. Tais
espaços tornaram-se mesmo uma marca e uma exigência de modernidade e de
civilização.
É possível, de alguma maneira traçar uma história política da relação do
Estado com a sociedade e dos seus valores a partir da história dos
espaços públicos e de suas transformações. Uma das características da
implantação dos espaços públicos, dentro da nova ordem pós 1789 é que
muitas vezes esta implantação decorreu de demandas da população, de uma
pressão política sobre o Estado para evitar que determinados espaços
fossem privatizados e passassem a ser propriedade do capital
imobiliário.
No Recife, não faz muito tempo, houve uma mobilização contra a
transformação do Hospital da Tamarineira, um bem público, em um shopping
center, cuja necessidade é absolutamente supérflua e cuja implantação
apenas agravaria os já insuportáveis problemas de circulação da cidade,
sem falar de outros males que daí adviriam. Esta luta foi vitoriosa, mas
já os interesses imobiliários estão de novo querendo implantar o
referido projeto.
Agora a população do Recife acaba de conquistar contra fortes interesses
privados a criação do Parque Dona Lindu, em Boa Viagem.
Conquista esta de grande alcance, sob todos os pontos de vista em que
for considerada: o da cidadania, o da saúde física e mental de seus
habitantes e o do fortalecimento do uso público de áreas que não podem
ou não devem ser patrimônio de poucos, mas de todos. Valores dos quais
sempre fomos carentes e cuja existência e afirmação são sempre
fundamentais.
No entanto, o modelo previsto pelo poder público para o Parque Dona
Lindu, com a instalação de equipamentos que comprometem parte
substancial de sua área sacrificando o espaço verde e agravando, entre
outros, os problemas viários do bairro, provocou a justificável e
salutar reação da sua população e tem recebido apoio de fora do mesmo.
É, ou deve ser elementar, que no caso, não importa o renome e o
reconhecimento de quem assinou o projeto, o arquiteto Oscar Niemeyer.
Importa a vontade da população. Se, no slogan da Prefeitura da Cidade do
Recife a grande obra é cuidar das pessoas, este cuidado exige, antes de
tudo, a escuta dos cidadãos e o respeito de suas vontades. Como já
estava inscrito na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, a
soberania reside na Nação e o poder público nada mais é do que o agente
desta soberania. Ao mesmo a iniludível obrigação de acatar a vontade
geral sob pena de trair o seu mandato, seja qual for o discurso sob o
qual se apresente.
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