|

FREVO: CENTENÁRIO COM FÔLEGO DE MENINO
Helem Olimpia
Ascom - ADUFEPE
A música ou o passo? É como o ovo e a
galinha, ninguém sabe ao certo quem veio primeiro. Aliás, a origem do
frevo, como um conjunto de obra, também é incerta. O historiador
Valdemar de oliveira em “Frevo, Capoeira e Passo” afirma que o frevo
nasceu no final do século 19 no carnaval do Recife.
A palavra frevo vem de ferver, por corruptela, frever, dando origem a
palavra frevo, que passou a designar: "Efervecência, agitação, confusão,
rebuliço; apertão nas reuniões de grande massa popular no seu vai-e-vem
em direções opostas como pelo Carnaval", de acordo com o Vocabulário
Pernambucano de Pereira da Costa.
A nomenclatura “Frevo” só se deu em 1907, quando o já extinto Jornal
Pequeno a publicou em 9 de fevereiro. A palavra foi publicada como nome
de uma música que estava no repertório de um ensaio de um clube no
recife, mas, a história também revela que esta palavra é uma antiga
expressão e vem de ferver, uma referência às festas que sempre eram
muito animadas.
A marcha que tinha em seus primórdios um andamento mais parecido com o
dobrado, ganhou elementos inovadores da polca e da marcha militar e foi,
com o passar dos anos, transformando-se no frevo pernambucano,
transfigurando as antigas agremiações do século XIX nos Clubes
Carnavalescos dos nossos dias. O Clube chamou para si a atenção dos
capoeiras que vinham à frente das bandas exibindo-se no intuito de
intimidar grupos rivais. Os golpes viraram passos de dança, evoluindo
juntamente com a música rítmica do frevo criando os diversos passos
acrobáticos utilizados na dança do frevo.
FREVO-DE-RUA
O frevo-de-rua é exclusivamente
instrumental, sem letra. É feito unicamente para se dançar. Este
estilo tem as modalidades de frevo-abafo (predominância de
instrumentos de metal), frevo-coqueiro (com notas agudas) e
frevo-ventania (semicolcheias).
Conta-se ainda que a “Marcha Pernambucana” como era conhecida
inicialmente nasceu do costume das bandas militares acompanharem
os blocos de rua. O brabo, que puxava o povo, era treinado com
passos de capoeira. Para acompanhar os passos da capoeira, as
orquestras militares tocavam um rítimo mais rápido e dançante.
Esta marcha pernambucana, depois de já ter sido chamada de
marcha-frevo, evoluiu para o que conhecemos como frevo-de-rua. |
FREVO-CANÇÃO
A história deste tipo de frevo é
interessante. O frevo-canção foi tido como uma concessão
provocada, segundo o jornalista Ruy Duarte. Em 1931, os
compositores pernambucanos Raul e João Valença (irmãos Valença),
enviaram para a RCA, no Rio de Janeiro, seu frevo-canção com o
estribilho "O teu cabelo não nega mulata...", o compositor
carioca Lamartine Babo transformou-o em marchinha carnavalesca
que venceu o carnaval de 1932, sob o nome de "O teu cabelo não
nega". Os editores da música no Rio de Janeiro foram processados
na justiça pelos Irmãos Valença e no selo do disco passou a
constar: "Marcha - Motivos do norte - Arranjo de Lamartine
Babo".
Os pernambucanos reagiram ao que os cariocas faziam com suas
músicas e lhes mandavam de volta, e decidiram enviar ao Rio um
maestro pernambucano para ensinar aos músicos cariocas como
deveriam usar a matéria prima musical que seria logo
transformada em produto industrial sob a forma de disco.
Fervorosos do frevo do Recife pressentiram o perigo dessa
concessão cultural.
Existiam os amantes do frevo ortodoxo que eram ligados a clubes
carnavalescos tradicionais como o Vassourinhas, e que
incorporaram o frevo-canção sob forma de marcha-regresso, um
frevo lamentoso cantado nas madrugadas pelos passistas cansados
quando voltavam para casa, como o belíssimo: "Se essa rua fosse
minha / eu mandava ladrilhar / com pedrinhas de brilhante / para
o meu amor passar...".
E foi um frevo-canção lamentoso, também chamado de frevo de
bloco, que devolveu aos cariocas a invasão que fizeram no Recife
com "O teu cabelo não nega", quando em 1957 o maior sucesso no
Rio de Janeiro foi o frevo-canção "Evocação n°1", de Nélson
Ferreira. |
FREVO-DE-BLOCO
O frevo-de-bloco é executado por
Orquestras de Pau e Corda, com violões, banjos e cavaquinhos.
Suas letras e melodias, muitas vezes interpretadas por corais
femininos, geralmente trazem um misto de saudade e evocação.
Sua origem vem das serenatas no início do presente século. Sua
orquestra é composta de Pau e Corda: violões, banjos,
cavaquinhos, etc. Nas últimas três décadas observou-se a
introdução de clarinete, seguida da parte coral integrada por
mulheres. Frevos-de-bloco famosos: Valores do Passado de Edgar
Moraes, Marcha da Folia de Raul Moraes, Relembrando o Passado de
João Santiago, Saudade dos Irmãos Valença, entre outros. |

O VESTUÁRIO
Também como elemento imprescindível em algumas danças folclóricas, o
vestuário que se precisa para dançar o frevo, não exige roupa típica ou
única. Geralmente a vestimenta é de uso cotidiano, sendo a camisa mais
curta que o comum e justa ou amarrada à altura da cintura, a calça
também de algodão fino, colada ao corpo, variando seu tamanho entre
abaixo do joelho e acima do tornozelo, toda a roupa com predominância de
cores fortes e estampada. A vestimenta feminina se diferencia pelo uso
de um short sumário, com adornos que dele pendem ou mini-saias, que dão
maior destaque no momento de dançar.
Um elemento complementar desta dança é a sombrinha. O passista à conduz
como símbolo do frevo e como auxílio em suas acrobacias. A sombrinha em
sua origem não passava de um guarda-chuva conduzido pelos capoeiristas
pela necessidade de ter na mão como arma para ataque e defesa, já que a
prática da capoeira estava proibida. Este argumento baseia-se no fato de
que os primeiros frevistas, não conduziam guarda-chuvas em bom estado,
valendo-se apenas da solidez da armação. Com o decorrer do tempo, esses
guarda-chuvas, grandes, negros, velhos e rasgados se vêm transformados,
acompanhando a evolução da dança, para converter-se, atualmente, em uma
sombrinha pequena de 50 ou 60 centímetros de diâmetro.
Passos do frevo
- A dança do
frevista é geralmente caracterizada pela sua individualidade na
exibição dos passos. Os passos nasceram da improvisação individual
dos dançarinos, com o correr dos anos, dessa improvisação se
adotaram certos tipos ou arquétipos de passos. Existem atualmente um
número incontável de passos ou evoluções com suas respectivas
variantes. Os passos básicos elementares podem ser considerados os
seguintes: dobradiça, tesoura, locomotiva, ferrolho, parafuso,
pontilhado, ponta de pé e calcanhar, saci-pererê, abanando,
caindo-nas-molas e pernada, este último claramente identificável na
capoeira.
LOCOMOTIVA
Inicia-se com o corpo agachado e os braços abertos para
frente, em quase circunferência e a sombrinha na mão
direita. Dão-se pequenos pulos para encolher e estirar
cada uma das pernas, alternadamente. |
PARAFUSO
Total flexão das pernas. O corpo fica, inicialmente,
apoiado em um só pé virado, ou seja, a parte de cima do
pé fica no chão, enquanto o outro pé vira-se, permitindo
o apoio de lado (o passista arria o corpo devagar). |
DOBRADIÇA
- Flexiona-se as pernas, com os joelhos para frente e o
apoio do corpo nas pontas dos pés. Corpo curvado para
frente realizando as mudanças dos movimentos: o corpo
apoiado nos calcanhares, que devem está bem aproximados
um do outro, pernas distendidas, o corpo jogado para
frente e para trás, com a sombrinha na mão direita,
subindo e descendo para ajudar no equilíbrio. Não há
deslocamentos laterais. Os pés pisam no mesmo local com
os calcanhares e pontas. |
FERROLHO
Como a sapatear no gelo, as pernas movimentando-se
primeiro em diagonal (um passo) seguido de flexão das
duas pernas em meia ponta, com o joelho direito virado
para a esquerda e vice-versa. Repetem-se os movimentos,
vira-se o corpo em sentido contrário ao pé de apoio,
acentuando o tempo e a marcha da música. Alternam-se os
pés, movimentando-se para frente e para trás, em meia
ponta e calcanhar; o passista descreve uma
circunferência. |
TESOURA
A - Passo cruzado com pequenos deslocamentos à direita e
à esquerda. Pequeno pulo, pernas semiflexionadas,
sombrinha na mão direita, braços flexionados para os
lados.
B - O dançarino cruza a perna direita por trás da
esquerda em meia ponta, perna direita `a frente, ambas
semiflexionadas. Um pulo desfaz o flexionamento das
pernas e, em seguida, a perna direita vai apoiada pelo
calcanhar; enquanto a esquerda, semiflexionada, apoia-se
em meia ponta do pé, deslocando o corpo para esquerda.
Refaz-se todo o movimento, indo a perna esquerda por
trás da direita para desfazer o cruzamento. Neste
movimento, o deslocamento para a direita é feito com o
corpo um pouco inclinado. |
|