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10 Anos sem Chico
Israel Leal
Ascom ADUFEPE
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A cultura pernambucana que encanta
e leva multidões ao delírio a cada manifestação, ato e pulsação,
passou por muitos momentos e transformações. Momentos que nos
encheram de alegria e orgulho. Momentos que formaram a
identidade do nosso povo. |
Este
ano, algo no mínimo incoerente nos trouxe um misto de alegria,
de tristeza e de saudades; Aos 100 anos do Frevo, uma de nossas
maiores criações, lembramos os 10 anos da morte de um dos nossos
maiores criadores; Chico Science.
Definitivamente o ano de 1997 foi onde este misto de alegria e
de tristeza mais esteve presente em nossas vidas.
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Em 2 de
fevereiro, em pleno carnaval, nossa maior festa popular, onde o
ancião Frevo que
completava 90 anos e o mui jovem Mangue Beat entrariam mais uma
vez em sintonia para alegrar a vida de quem queria celebrar a
mesma, perdemos um grande irmão nos quesitos, originalidade,
autenticidade e principalmente pernambucanidade.
Dez anos depois, os ritmos de nossa terra vêm a cada dia se
firmando na identidade cultural de Pernambuco. Completando 100
anos, o frevo deixa de ser “apenas” um rítimo dançante para se
tornar patrimônio imaterial. E dez anos após a partida de Chico,
o Mangue continua vivo ao mesmo tempo em que vai sendo difundido
Brasil a fora. |
“Como
um pássaro o tempo voa. A procura do exato momento. Onde o
que você pode fazer fosse agora. Com as roupas sujas de
lama. Porque o barro arrudeia o mundo. E a TV não tem olhos
pra ver. Eu sou como aquele boneco. Que apareceu no dia na
fogueira. E controla seu próprio satélite. Andando por cima
da terra. Conquistando o seu próprio espaço. É onde você
pode estar agora.”
(Um Satélite na Cabeça - CSNZ). |
CHICO E O MANGUE
1987. Francisco de Assis França cria a desconhecida banda Orla Obre,
inovando com as influencias da musica negra americana que era cultuada
pela Legião Hip Hop, grupo que fazia parte à três anos. Anos depois, com
Lúcio Maia e Alexandre Dengue foi formada a banda Loustral, que trouxe o
Rock sem abandonar a black music e o Hip Hop.
Tudo isso parecia apenas um sonho ou uma forma de entretenimento para um
jovem apaixonado por música. Mas ao contrário dos jovens comuns, que
deixam suas paixões frente à necessidade e à pressão da sociedade,
Francisco ousou.
O grande diferencial dele foi ter misturado em 1991, quando já era
conhecido como Chico Science, o batuque do maracatu e o côco de roda a
todas as influencias que já eram presentes em sua musicalidade. É claro
Chico, ao ouvir o batuque do bloco Lamento Negro e decidir incorporar
aquele rítimo em seu som, não tinha a consciência de que dimensões
aquela harmonia recém criada e batizada por ele como Mangue Bit, iria
alcançar.
A Orla Nobre e a Loustral ficaram para trás, em junho de 1991, a banda
que atendia agora por Chico Science e a Nação Zumbi (CSNZ) fez o seu
primeiro show. No espaço Oásis em Olinda, a revolução da música pop
pernambucana começava. Chico havia acertado.
Várias outras bandas começaram a surgir e a seguir o mesmo estilo
inovador de CSZN. Muitos shows foram realizados com outros grupos da
região metropolitana de Recife como o Mundo Livre S/A. Neste momento os
jornais locais já estavam antenados neste movimento que tão rapidamente
conquistava o povo.
Mesmo fracassando no manifesto “Caranguejo com Cérebro” que fora escrito
por integrantes do movimento, bastou algumas bandas se apresentarem três
vezes em São Paulo e Belo Horizonte para chamar a atenção do público e
das gravadoras.
Em 1994, “Da Lama ao Caos” arrancou elogios dos principais críticos de
música do Brasil e levou o público ao delírio. A partir daí, o mundo
conhecia a força do mangue. A confirmação do sucesso viria dois anos
depois com o lançamento do álbum Afrociberdelia.
Mas aí... Aí veio o ano de 1997... Um ano que, se fosse possível,
certamente seria deletado da história. Seria pulado e ninguém sentiria
falta...
Chico se foi naquele ano. As 33 anos, deixou no ar a dúvida sobre a
continuidade do movimento ao bater seu carro num poste no Complexo
Salgadinho entre Olinda e Recife suas duas cidades tão amadas e que
tanto o amavam.
Ao baixar da “poeira da tristeza”, o mangue, que perdia seu “pai”, se
recuperou lentamente, mas sempre se guiando na imagem de um inovador
chamado Chico Science.
MANIFESTO: CARANGUEJOS
COM CÉREBRO
Por: Chico Science e Fred Zero Quatro
Mangue, o conceito
Estuário. Parte terminal de rio ou lagoa. Porção de rio com
água salobra. Em suas margens se encontram os manguezais,
comunidades de plantas tropicais ou subtropicais inundadas
pelos movimentos das marés. Pela troca de matéria orgânica
entre a água doce e a água salgada, os mangues estão entre
os ecossistemas mais produtivos do mundo.
Estima-se que duas mil espécies de microorganismos e animais
vertebrados e invertebrados estejam associados à vegetação
do mangue. Os estuários fornecem áreas de desova e criação
para dois terços da produção anual de pescados do mundo
inteiro. Pelo menos oitenta espécies comercialmente
importantes dependem do alagadiço costeiro.
Não é por acaso que os mangues são considerados um elo
básico da cadeia alimentar marinha. Apesar das muriçocas,
mosquitos e mutucas, inimigos das donas-de-casa, para os
cientistas são tidos como símbolos de fertilidade,
diversidade e riqueza.
Manguetown, a cidade
A planície costeira onde a cidade do Recife foi fundada é
cortada por seis rios. Após a expulsão dos holandeses, no
século XVII, a (ex)cidade *maurícia* passou desordenadamente
às custas do aterramento indiscriminado e da destruição de
seus manguezais.
Em contrapartida, o desvairio irresistível de uma cínica
noção de *progresso*, que elevou a cidade ao posto de
*metrópole* do Nordeste, não tardou a revelar sua
fragilidade.
Bastaram pequenas mudanças nos ventos da história, para que
os primeiros sinais de esclerose econômica se manifestassem,
no início dos anos setenta. Nos últimos trinta anos, a
síndrome da estagnação, aliada a permanência do mito da
*metrópole* só tem levado ao agravamento acelerado do quadro
de miséria e caos urbano.
Mangue, a cena
Emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto!
Não é preciso ser médico para saber que a maneira mais
simples de parar o coração de um sujeito é obstruindo as
suas veias. O modo mais rápido, também, de infartar e
esvaziar a alma de uma cidade como o Recife é matar os seus
rios e aterrar os seus estuários. O que fazer para não
afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como
devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da
cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e
estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do
Recife.
Em meados de 91, começou a ser gerado e articulado em vários
pontos da cidade um núcleo de pesquisa e produção de idéias
pop. O objetivo era engendrar um *circuito energético*,
capaz de conectar as boas vibrações dos mangues com a rede
mundial de circulação de conceitos pop. Imagem símbolo: uma
antena parabólica enfiada na lama.
Hoje, Os mangueboys e manguegirls são indivíduos
interessados em hip-hop, colapso da modernidade, caos,
ataques de predadores marítimos (principalmente tubarões),
moda, Jackson do Pandeiro, Josué de Castro, rádio, sexo
não-virtual, sabotagem, música de rua, conflitos étnicos,
midiotia, Malcom Maclaren, Os Simpsons e todos os avanços da
química aplicados no terreno da alteração e expansão da
consciência.
Bastaram poucos anos para os produtos da fábrica mangue
invadirem o Recife e começarem a se espalhar pelos quatro
cantos do mundo. A descarga inicial de energia gerou uma
cena musical com mais de cem bandas. No rastro dela,
surgiram programas de rádio, desfiles de moda, vídeo clipes,
filmes e muito mais. Pouco a pouco, as artérias vão sendo
desbloqueadas e o sangue volta a circular pelas veias da
Manguetown.” |
Para
homenagear Chico Science, a prefeitura de Olinda promoveu
várias atividades no dia 13 (quando o cantor completaria 41
anos), como oficinas de grafitagem, workshop de DJs, além de
debate sobre o tema Movimento Mangue e Perspectiva para o
Futuro.
As ações aconteceram no Nascedouro (antigo matadouro) de
Peixinhos, em Olinda e teve a participação direta daquela
comunidade.
“Chico Science será sempre lembrado não só como um cantor e
compositor que abriu novos caminhos para um estilo novo de
música pop, rock pernambucano, que revolucionou a estética,
sem perder as raízes, mas como um artista que amava a arte e
o povo do mangue de Pernambuco e do Brasil.” |
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