Arte sensu nº 6

Páginas 6 e 7
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10 Anos sem Chico

Israel Leal
Ascom ADUFEPE

 

A cultura pernambucana que encanta e leva multidões ao delírio a cada manifestação, ato e pulsação, passou por muitos momentos e transformações. Momentos que nos encheram de alegria e orgulho. Momentos que formaram a identidade do nosso povo.
Este ano, algo no mínimo incoerente nos trouxe um misto de alegria, de tristeza e de saudades; Aos 100 anos do Frevo, uma de nossas maiores criações, lembramos os 10 anos da morte de um dos nossos maiores criadores; Chico Science.
Definitivamente o ano de 1997 foi onde este misto de alegria e de tristeza mais esteve presente em nossas vidas.
Em 2 de fevereiro, em pleno carnaval, nossa maior festa popular, onde o ancião Frevo que completava 90 anos e o mui jovem Mangue Beat entrariam mais uma vez em sintonia para alegrar a vida de quem queria celebrar a mesma, perdemos um grande irmão nos quesitos, originalidade, autenticidade e principalmente pernambucanidade.
Dez anos depois, os ritmos de nossa terra vêm a cada dia se firmando na identidade cultural de Pernambuco. Completando 100 anos, o frevo deixa de ser “apenas” um rítimo dançante para se tornar patrimônio imaterial. E dez anos após a partida de Chico, o Mangue continua vivo ao mesmo tempo em que vai sendo difundido Brasil a fora.

“Como um pássaro o tempo voa. A procura do exato momento. Onde o que você pode fazer fosse agora. Com as roupas sujas de lama. Porque o barro arrudeia o mundo. E a TV não tem olhos pra ver. Eu sou como aquele boneco. Que apareceu no dia na fogueira. E controla seu próprio satélite. Andando por cima da terra. Conquistando o seu próprio espaço. É onde você pode estar agora.”
(Um Satélite na Cabeça - CSNZ).


CHICO E O MANGUE

1987. Francisco de Assis França cria a desconhecida banda Orla Obre, inovando com as influencias da musica negra americana que era cultuada pela Legião Hip Hop, grupo que fazia parte à três anos. Anos depois, com Lúcio Maia e Alexandre Dengue foi formada a banda Loustral, que trouxe o Rock sem abandonar a black music e o Hip Hop.
Tudo isso parecia apenas um sonho ou uma forma de entretenimento para um jovem apaixonado por música. Mas ao contrário dos jovens comuns, que deixam suas paixões frente à necessidade e à pressão da sociedade, Francisco ousou.
O grande diferencial dele foi ter misturado em 1991, quando já era conhecido como Chico Science, o batuque do maracatu e o côco de roda a todas as influencias que já eram presentes em sua musicalidade. É claro Chico, ao ouvir o batuque do bloco Lamento Negro e decidir incorporar aquele rítimo em seu som, não tinha a consciência de que dimensões aquela harmonia recém criada e batizada por ele como Mangue Bit, iria alcançar.
A Orla Nobre e a Loustral ficaram para trás, em junho de 1991, a banda que atendia agora por Chico Science e a Nação Zumbi (CSNZ) fez o seu primeiro show. No espaço Oásis em Olinda, a revolução da música pop pernambucana começava. Chico havia acertado.
Várias outras bandas começaram a surgir e a seguir o mesmo estilo inovador de CSZN. Muitos shows foram realizados com outros grupos da região metropolitana de Recife como o Mundo Livre S/A. Neste momento os jornais locais já estavam antenados neste movimento que tão rapidamente conquistava o povo.
Mesmo fracassando no manifesto “Caranguejo com Cérebro” que fora escrito por integrantes do movimento, bastou algumas bandas se apresentarem três vezes em São Paulo e Belo Horizonte para chamar a atenção do público e das gravadoras.
Em 1994, “Da Lama ao Caos” arrancou elogios dos principais críticos de música do Brasil e levou o público ao delírio. A partir daí, o mundo conhecia a força do mangue. A confirmação do sucesso viria dois anos depois com o lançamento do álbum Afrociberdelia.
Mas aí... Aí veio o ano de 1997... Um ano que, se fosse possível, certamente seria deletado da história. Seria pulado e ninguém sentiria falta...
Chico se foi naquele ano. As 33 anos, deixou no ar a dúvida sobre a continuidade do movimento ao bater seu carro num poste no Complexo Salgadinho entre Olinda e Recife suas duas cidades tão amadas e que tanto o amavam.
Ao baixar da “poeira da tristeza”, o mangue, que perdia seu “pai”, se recuperou lentamente, mas sempre se guiando na imagem de um inovador chamado Chico Science.

 

MANIFESTO: CARANGUEJOS COM CÉREBRO
Por: Chico Science e Fred Zero Quatro

Mangue, o conceito
Estuário. Parte terminal de rio ou lagoa. Porção de rio com água salobra. Em suas margens se encontram os manguezais, comunidades de plantas tropicais ou subtropicais inundadas pelos movimentos das marés. Pela troca de matéria orgânica entre a água doce e a água salgada, os mangues estão entre os ecossistemas mais produtivos do mundo.
Estima-se que duas mil espécies de microorganismos e animais vertebrados e invertebrados estejam associados à vegetação do mangue. Os estuários fornecem áreas de desova e criação para dois terços da produção anual de pescados do mundo inteiro. Pelo menos oitenta espécies comercialmente importantes dependem do alagadiço costeiro.
Não é por acaso que os mangues são considerados um elo básico da cadeia alimentar marinha. Apesar das muriçocas, mosquitos e mutucas, inimigos das donas-de-casa, para os cientistas são tidos como símbolos de fertilidade, diversidade e riqueza.

Manguetown, a cidade
A planície costeira onde a cidade do Recife foi fundada é cortada por seis rios. Após a expulsão dos holandeses, no século XVII, a (ex)cidade *maurícia* passou desordenadamente às custas do aterramento indiscriminado e da destruição de seus manguezais.
Em contrapartida, o desvairio irresistível de uma cínica noção de *progresso*, que elevou a cidade ao posto de *metrópole* do Nordeste, não tardou a revelar sua fragilidade.
Bastaram pequenas mudanças nos ventos da história, para que os primeiros sinais de esclerose econômica se manifestassem, no início dos anos setenta. Nos últimos trinta anos, a síndrome da estagnação, aliada a permanência do mito da *metrópole* só tem levado ao agravamento acelerado do quadro de miséria e caos urbano.

Mangue, a cena
Emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto! Não é preciso ser médico para saber que a maneira mais simples de parar o coração de um sujeito é obstruindo as suas veias. O modo mais rápido, também, de infartar e esvaziar a alma de uma cidade como o Recife é matar os seus rios e aterrar os seus estuários. O que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife.
Em meados de 91, começou a ser gerado e articulado em vários pontos da cidade um núcleo de pesquisa e produção de idéias pop. O objetivo era engendrar um *circuito energético*, capaz de conectar as boas vibrações dos mangues com a rede mundial de circulação de conceitos pop. Imagem símbolo: uma antena parabólica enfiada na lama.
Hoje, Os mangueboys e manguegirls são indivíduos interessados em hip-hop, colapso da modernidade, caos, ataques de predadores marítimos (principalmente tubarões), moda, Jackson do Pandeiro, Josué de Castro, rádio, sexo não-virtual, sabotagem, música de rua, conflitos étnicos, midiotia, Malcom Maclaren, Os Simpsons e todos os avanços da química aplicados no terreno da alteração e expansão da consciência.
Bastaram poucos anos para os produtos da fábrica mangue invadirem o Recife e começarem a se espalhar pelos quatro cantos do mundo. A descarga inicial de energia gerou uma cena musical com mais de cem bandas. No rastro dela, surgiram programas de rádio, desfiles de moda, vídeo clipes, filmes e muito mais. Pouco a pouco, as artérias vão sendo desbloqueadas e o sangue volta a circular pelas veias da Manguetown.”


 

Para homenagear Chico Science, a prefeitura de Olinda promoveu várias atividades no dia 13 (quando o cantor completaria 41 anos), como oficinas de grafitagem, workshop de DJs, além de debate sobre o tema Movimento Mangue e Perspectiva para o Futuro.
As ações aconteceram no Nascedouro (antigo matadouro) de Peixinhos, em Olinda e teve a participação direta daquela comunidade.

“Chico Science será sempre lembrado não só como um cantor e compositor que abriu novos caminhos para um estilo novo de música pop, rock pernambucano, que revolucionou a estética, sem perder as raízes, mas como um artista que amava a arte e o povo do mangue de Pernambuco e do Brasil.”

 

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