Arte sensu nº 6

Páginas 8 e 9
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Episódio dois

Lurildo R. Saraiva
Prof.º do Departamento de Medicina Clínica da UFPE

 

 “C'est toi le Juste, enfin, le Juste! C'est assez!” (Rimbaud)

Em um instante de alumbramento,
Dom Helder fala da tentativa do seu assassinato.

No ano de 1969, o atentado na Ponte da Torre contra o Presidente do DCE, Cândido Pinto, e o martírio do Padre Henrique iniciaram a escalada de terror do regime militar em Recife, respirando-se um ar fascista, sob o Ato Institucional Número 5, pelo qual um ajuntamento de poucos estudantes era visto como uma ameaça à “Doutrina de Segurança Nacional”, imposta ao país pelos EUA. Dom Helder Câmara era constantemente seguido por agentes do DOPS, paradoxalmente, um fato público, que nunca o impediu de cumprir os seus deveres de Arcebispo.
Tomava curso a dispersão do movimento estudantil, discutindo-se muito em bares na Cabana, situada em pleno Parque 13 de Maio, no Mustang, recém-inaugurado qual destino tomar: uns optavam pela luta armada, outros, pela dedicação ao futuro profissional, outros, ainda, eram guindados ao puro desbunde, característica do Movimento Tropicalista, de Caetano e Gil, sendo a canção “Sem lenço e sem documento”, do primeiro, que assustara a esquerda ortodoxa no ano de 1967, o seu sinal precursor, outros mais comporiam a “esquerda festiva” ou “la gauche caviar”, como a chamam os franceses, que defendiam a revolução, tomando banhos em piscinas, regados a uísque importado, constituindo o protótipo dos futuros partidos da chamada esquerda neoliberal . Na base de porres homéricos, os primeiros tragos de maconha tomavam difusão rápida, bem como a liberação sexual, pura e simples, em suas diversas formas. Tudo era muito sofrido, os nossos ideais estavam sendo destroçados, pouco a pouco, pela repressão. De novo, ouvia-se o antigo canto de Drummond:


“Já não há mãos dadas no mundo. Elas agora viajarão sozinhas. Sem o fogo dos velhos contatos, que ardia por dentro e dava coragem.”

Em outubro de 1970, próximo ao aniversário de Lígia Robalinho, no dia 30, em uma segunda feira precedente, ao retornar da Faculdade de Direito, onde costumava almoçar no restaurante universitário ali existente, a querida amiga me convida a um jantar, que seria oferecido ao Dom no mesmo dia, por sua amiga Miriam Gusmão, na Avenida Manoel Borba. Fui tomado por uma imensa alegria, que oportunidade rara e extraordinária a vida me oferecia... Corri ao Giriquiti para adquirir a apostila publicada pela Arquidiocese, contendo as denúncias efetuadas pelo pastor, em Paris, no mês de maio, sobre as torturas praticadas contra presos políticos brasileiros, sobretudo em São Paulo, Rio e Recife, onde a repressão era particularmente perversa. Desejava muito obter o seu autógrafo.
Lígia, sua prima Rosa e eu chegamos ao pequeno apartamento mais cedo. Pouco tempo depois, chegam Dom Helder e seu bispo auxiliar, Dom José Lamartine. Emocionado, lembrei-me rapidamente da minha trajetória de vida, eu, que estudara na “Escola Rural Guarani”, em Missão Velha, Ceará, o alicerce fundamental da minha visão do mundo, em uma única sala composta de alunos de graus diversos, filhos de humildes marceneiros, empregadas domésticas, que cairiam na prostituição tempos depois, outros, em maior parte, oriundos da modesta classe média da pequena cidade onde nasci, eu, que acompanhara o trabalho do Dom ao lado dos excluídos no Rio de Janeiro, sempre a clamar por justiça social, eu, um simples estudante de Medicina, perseguido, jantando com um dos homens mais importantes do século XX? O bem que a vida nos proporciona... Tinha ele um riso de paz, de quietude, de comunhão com todos os homens e com o mundo todo. O olhar, tão manso e bonito! Dom Lamartine era a figura discreta, cujo apoio ao Dom, nos seus momentos de dor, traria amparo ao grande pastor.
Após o cumprimento efusivo a todos, sobretudo à anfitriã, sentou-se próximo a mim. Eu estava trêmulo pela emoção. Lígia, expansiva e alegre, diz: “Dom Helder, o Lurildo é seu conterrâneo!” Ele se volta a mim e me pergunta: “Onde nasceu, meu filho? Em Missão Velha, Dom, o senhor a conhece?” Sim, estive ali em 1927, ainda seminarista. O jornal O Nordeste, da Arquidiocese de Fortaleza, atravessava grandes dificuldades econômicas naquele ano e o Arcebispo encarregou-me de obter assinaturas para o pequeno jornal no Cariri, sobretudo em Juazeiro do Norte, que já era uma cidade em crescimento. Falou-me dos obstáculos que iria encontrar, pois o Padre Cícero estava muito magoado com a sua influência no Vaticano, que lhe impedira cumprir os sacramentos da Igreja.
No primeiro dia, andei o comércio inteiro e nenhuma assinatura consegui. Cansado, parei em um barzinho e pedi um café. Como estava de batina, o dono do estabelecimento perguntou-me o que fazia ali. Narrei-lhe rapidamente o ocorrido e aquele senhor me disse: “O senhor já falou com o Padre Cícero? Talvez, ele lhe facilite as coisas...” Fui, então, à casa do sacerdote e o conheci: alto, magro, de cor muito branca, com um olhar penetrante, de olhos intensamente azuis! Reclamou muito da injustiça de que era vítima, mas, mesmo assim, iria ajudar-me. Escreveu em um pequeno papel: é do meu interesse, e assinou. “Mostre aonde chegar”. Saí da sua casa e por onde passei colhi assinaturas, tantas foram elas que me dispensaram a ida a outras cidades da região. Jamais esqueci o olhar daquele homem.
Servido o jantar, depois do cafezinho, de novo nos conta: Há alguns dias fui vítima de uma tentativa de assassinato. Cerca das 22 horas, alguém bate à porta da pequena casa onde moro, na Igreja das Fronteiras. Chovia. Abro e encontro um mendigo seminu, que me diz: “Dom Heldis, estou com fome e muito frio. Me ajude!”. Eu o fiz entrar na salinha da minha casa, comecei a procurar uma camisa para ele e providenciar café e pão. Subitamente, me volto e o vejo com uma grande peixeira na mão direita, pronto a me agredir pelas costas. Olhando-me assustado, ajoelha-se e, chorando muito, confessa: “Perdoe pai, a polícia me pagou para eu lhe matar, perdoe meu pai!” Eu lhe disse: “Levanta homem, toma a roupa e a comida que me pediu. Põe a peixeira em cima da mesa e vai embora, em paz. Eu lhe perdôo”. Um gesto digno desse grande homem, que receberia, rotineiramente, inúmeros telefonemas ameaçadores, com palavras injuriosas.
Finda a refeição, pede-nos aos três para sairmos juntos, de modo algum separados esse conselho seria uma constante na sua missão religiosa, sob a ditadura militar. Avisa-nos que viríamos na calçada do lado oposto da rua dois homens, “secretas” do DOPS, que sempre os acompanhavam a ele e a Dom Lamartine. Que saíssemos com cuidado e tomássemos logo, logo o fusca em que viemos!

Demorei-me a dormir no pequeno apartamento na Rua Dom Bosco, onde, então, residia com minha irmã Luci. Tinha conversado com uma das figuras mais admiráveis da nossa História, um dos homens que mais amei em toda a minha vida, por quem iria chorar, intensamente, no dia em que o vi morto, no interior das Fronteiras, onde viveu e produziu toda a sua obra. Naquele instante de escuridão democrática, quase única voz a denunciar os crimes que a ditadura semeava em todo o país. Que acolhia sempre, com intensíssimo amor, os perseguidos do regime, de qualquer credo ou partido a que pertencessem, um ser de luz.

Mas, em 1970, imaturos, com 23, 24 anos, não conseguimos compreender a mensagem que Pasolini nos dizia no seu cultuado Teorema. Qual anjo exterminador de Buñuel, Terence Stamp, a ler constantemente Arthur Rimbaud, possuindo sexualmente todos os membros de uma rica família burguesa, desnuda os seus alicerces falsos e podres, expõe a verdade interior de cada um deles e anuncia a todos nós o advento do “neo-capitalismo financeiro” dos dias atuais, a forma mais perversa do regime capitalista cruel com os deserdados, destruidor da pureza e da esperança dos jovens já prevista por Karl Marx no século 19. Como anteviu o grande pensador italiano, ocorreria o nivelamento brutalmente totalitário do mundo, fazendo aquilo que o fascismo histórico fracassou: um verdadeiro genocídio cultural, onde o povo desaparece em uma massa indiferenciada de consumidores submissos e alienados (Scarpetta).
Passaríamos a viver em Dis-sociedade (La dissociété) - conforme a idéia recente de Généreux, - em um mundo materialista de concorrência generalizada, onde os homens, como eternos rivais, tornam-se verdadeiros predadores uns dos outros, jamais irmãos.

(de “Água Braba” Luirildo R. Saraiva)

 

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