Arte sensu nº 7

Páginas 10 a 12
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O Arte Sensu apresenta visões diferentes sobre um dos marcos mais importantes para os trabalhadores e intelectuais, a revolução proletário-camponesa ocorrida na Rússia em 1917. São artigos que instigam o debate, a reflexão sobre a atualidade da revolução e do socialismo.
O Arte Sensu vai continuar como um espaço alternativo para que reflexões comprometidas com a luta e com as transformações, tão ausentes nos meios de comunicação. O objetivo é que as idéias possam fluir e contribuir efetivamente para que, como os autores disseram, possamos tirar lições.


 

Revolução Russa: um breve tempo para uma grande lição

José Henrique Duarte Neto
Doutorando em Educação / UFPE

A Revolução Russa de Outubro de 1917 é sem dúvidas um dos mais importantes fatos da História. Pela primeira vez, desde que a humanidade passou a se organizar para garantir a produção e reprodução de sua existência, de modo a constituir-se em classes sociais, com interesses antagônicos, baseada em relações sociais marcadas por uma profunda exploração, foi colocada para os homens, a possibilidade de retirar as bases a partir das quais as relações de desigualdade se constituíam e se reproduziam. Estava suprimida a propriedade privada dos meios de produção.

A Revolução Russa é fruto das contradições das relações do capital, em um mundo subordinado aos interesses dos grandes monopólios. Contradições sociais e econômicas que jogavam na fome e na miséria milhões de pessoas num país atrasado, com uma autocracia violenta e perdulária. Envolvida em um conflito mundial, (1914-1918) que aumentava de forma significativa o enorme sacrifício do povo, acabou por oferecer as condições políticas para desencadear um processo irreversível de transformação social. Em torno de um slogan, - que resumia de forma surpreendente os interesses mais imediatos e mais sentidos das populações flageladas , pôde aprofundar o grau de consciência das massas, de modo a compreender que o cumprimento destas palavras de ordem, só podia ocorrer em um processo revolucionário, dado o grau de comprometimento e subordinação das classes dirigentes russas ao capital internacional. A reivindicação girava em torno das singelas palavras: terra, pão e paz.

É necessário compreender, todavia, que as condições objetivas, não são por si só, suficientes para operar um processo de transformação na direção em que ocorreu a revolução. Romper um “elo da cadeia do imperialismo”, como afirmara um de seus principais dirigentes Lênin -, não é uma tarefa de natureza meramente econômica, antes, é a exigência de um profundo processo de apreensão da realidade social e política, em que estava mergulhada a Rússia. É compreender e dirigir todos os esforços de organização política, de clareza do movimento, para incitar as massas e atuar pela contradição nos interesses dos principais envolvidos no processo. Trata-se de tomar como orientação para intervenção, o que Marx e Engels, no Manifesto Comunista, já afirmaram: a história de todas as sociedades, desde o advento da propriedade privada, é a história das lutas de classes.

São enormes as lições que podemos tirar deste marco histórico. A necessária existência de um nível de organização que esteja consubstanciada em um partido político; ter como dirigente a classe social historicamente destituída de qualquer propriedade e criar mecanismos para que esta mantenha, no processo de tomada do poder e de sua construção, o controle sob suas mãos. A Revolução Russa nos mostrou que a tomada do poder político é uma empreitada titânica. Porém, a tarefa mais árdua ainda estava por vir. Era preciso construir todo um modus vivendi que procurasse corresponder a esta nova forma de organização da sociedade. Difícil julgar, mas o caminho do distanciamento entre as instâncias decisórias e aqueles setores sociais diretamente interessados na construção de uma nova sociedade, aliada ao isolamento político e econômico internacional, parecem ter sido fundamentais no processo de dissolução de uma experiência significativa para a humanidade. Como não há derrota definitiva para o povo, fica para nós a certeza, com a Revolução Russa, da possibilidade histórica da superação das relações do capital, que subordina todas as dimensões da vida ao valor de troca, à mercadoria.


“Revolução Russa:
uma jovem de 90 Anos”

David Cavalcanti
Mestre em Ciência Política-UFPE e membro do ILAESE (Instituto Latino Americano de Estudos Socioeconômicos)

Nestes meses de outubro e novembro, milhares de pessoas em todo o mundo se reuniram para debater os significados e a herança da Revolução Russa para a história, as organizações dos trabalhadores e para a esquerda.

Não é à toa que depois de 90 Anos um tema tenha tamanha importância, pois foi aí que ocorreu a primeira experiência prática de um poder de Estado organizado pelos trabalhadores. A velha tese defendida pelas diversas matizes socialistas de que não era necessário uma classe dominante para gerir a vida social e o poder político saía das páginas dos livros e executava-se no terreno prático. Toda a teoria socialista construída nos Séculos XVIII e XIX pelos filósofos, teóricos e militantes concretizou-se pela primeira vez na Revolução Russa, já que a Comuna de Paris havia sido uma tentativa localizada e sido esmagada em poucos meses.

A Revolução Russa provou não somente ser possível destruir o capitalismo e se livrar de sua classe dominante, senão que a experiência socialista poderia trazer conquistas sociais, civis e humanas superiores à maioria dos países capitalistas, inclusive os mais desenvolvidos, incluindo no terreno da democracia quando construiu o poder dos Conselhos (Sovietes) de operários, camponeses e soldados para controlar a produção, governar as cidades e os bairros, decidir pela gestão da terra.

A Revolução Russa de 1917 resolveu, por exemplo, o problema do acesso à terra para cerca de 150 milhões de camponeses, conseguiu o pleno emprego para a maioria dos trabalhadores, garantiu o acesso à educação, à saúde, à cultura e a moradia para a maioria da população, trouxe direitos civis e sociais às mulheres; conquistou, além da soberania nacional para um país submetido aos desígnios das potências européias, autonomia para as nacionalidades oprimidas pelo antigo império czarista.

A Revolução elevou a Rússia, um país governado por uma dinastia imperial absolutista há 300 anos, até então, com uma população de 80% de analfabetos, para uma potência industrial e científica, capaz de atingir níveis de desenvolvimento nos patamares dos países da Europa Ocidental e dos Estados Unidos.

Ocorre que no ano de 2007, há 18 anos da queda do Muro de Berlim, e depois da restauração do capitalismo em todos os países onde se iniciou a transição ao socialismo (inclusive Cuba e China) há que se discutir o porquê da chamada “crise do socialismo”.

Há várias interpretações para tal, não há espaço para se alongar nos limites deste artigo, mas uma das mais conhecidas em suas diversas versões é que o capitalismo e a economia de mercado demonstraram sua superioridade.

Ora, se essa versão fosse correta viveríamos num mundo em crescente harmonia e equilíbrio, mas todos os fatos sociais do pós-Leste Europeu, indicam que os problemas sociais no mundo aumentaram, basta ver a situação de fome e miséria na África, América Latina, Ásia e agora também nos países desenvolvidos. As guerras e as insurreições não só não cessaram, mas tornaram-se recorrentes no Oriente Médio (Iraque, Afeganistão, Palestina ocupada, etc) e na América Latina (Bolívia, México, Equador, Argentina, Colômbia, Venezuela, etc).

Além disso, o Século XXI e a globalização da economia trazem consigo dramas insolúveis e crescentes até então, como a questão ambiental, o crescente desemprego estrutural, as migrações massivas e a escassez dos recursos naturais diante do aumento populacional, a alta concentração de renda onde apenas 20% da população mundial detêm 80% da renda global, a instabilidade econômica e financeira, entre outras problemáticas globais.

Se olharmos com mais critério para outros exemplos na história, veremos que até que o trabalho escravo fosse extinto e repudiado na maioria das sociedades, ocorreram experiências como a de Spartakus (ac73 ac71) passando pelas diversas revoltas no mundo como a do Haiti ou de Zumbi no Brasil; até que se “aceitasse” a reforma agrária como uma solução para a situação social no campo poderíamos citar centenas de revoltas camponesas do período medieval até as atuais lutas dos sem terras; se tomarmos o surgimento dos primeiros comerciantes na Europa do Século XVI passando pelas Revoluções Inglesas, Francesa e a libertação das 13 Colônias na América do Norte até a consolidação do capitalismo houve uma dezenas de revoluções e enfrentamentos liderados pela burguesia.

Neste aspecto, olhando para a história do socialismo e sua primeira experiência, executada primeira na Rússia e depois em 1/3 da humanidade, em um curto espaço de tempo, podemos concluir que, diante da história da civilização humana, estas tentativas parecem ter sido somente o prelúdio de uma longa jornada.

Por fim, é possível afirmar duas questões de forma categórica, indicadas pela teoria dos fundadores do socialismo científico e pela experiência da república dos sovietes em seus primeiros anos: a primeira, é que o projeto de construção do socialismo, assim como foi e tem sido com o capitalismo, só poderá ser plenamente exercido se for à escala mundial, e a não experiência da planificação da economia no passado recente nos países onde o capitalismo havia atingido seus maiores índices de desenvolvimento para que a riqueza fosse socializada à escala planetária, gerou o germe do retrocesso das conquistas derivadas da Revolução Russa: a “nomenclatura” de Estado, a burocracia governante como um setor social privilegiado e seu correspondente regime político, a ditadura totalitária do partido único governada pela cúpula stalinista, oposta pelo vértice aos objetivos dos primeiros anos da Revolução Russa. A segunda, é que enquanto existir classes sociais haverá desigualdades sociais. Portanto, acirrados conflitos políticos e sociais entre as classes para a resolução das diferenças de como deve ser apropriada a riqueza social vão ser, também no Século XXI, recorrentes, consequentemente, a possibilidade de novas revoluções não será uma exceção histórica.


90 anos da Revolução Russa.
Um mundo socialista é possível.*

Edilson Silva
Presidente do PSOL-PE

Estamos completando 90 anos da Revolução Russa. A data é, antes de tudo, lembrada e comentada amplamente na sociedade mundial, mostrando a força deste evento histórico. Os anos que nos separam das batalhas teóricas, políticas e militares dessa revolução foram de profundas transformações na sociedade mundial, inclusive com a reforma do capitalismo na própria Rússia.

No entanto, o essencial das lições de outubro sobreviveu a tudo e permanece como elemento fundamental na busca pela edificação do socialismo, como uma referência para o conjunto daqueles que lutam contra o capitalismo de forma coerente. Em tempos de crise de paradigmas para a esquerda socialista mundial, a Revolução Russa manteve intacto o atestado de vitalidade de suas idéias: um outro mundo é possível. Mais: um mundo socialista, tanto quanto necessário, é possível.

A Revolução Russa foi uma espécie de desaguadouro das revoluções burguesas ocorridas na Inglaterra e França, incapazes de cumprir suas promessas de fraternidade, solidariedade e igualdade, de um mundo melhor. Ao mesmo tempo foi um coroamento das movimentações revolucionárias do proletariado de 1848 e 1870, na Alemanha e na França da Comuna de Paris, respectivamente. Por tudo isso, não é exagero afirmar que a Revolução Russa foi o maior empreendimento social do século XX.

De um país de maioria camponesa, a Revolução Bolchevique transformou a Rússia numa potência industrial e econômica. O planejamento econômico levou a nação Russa a crescer em determinados anos cerca de 1/3 de sua economia. Uma façanha quase inacreditável, mas absolutamente possível numa sociedade liberta das amarras do capitalismo. Estes triunfos fizeram-se refletir positivamente no nível de vida e na cultura da sociedade organizada na ex-URSS.

Mas a herança da Revolução Russa vai além do seu exemplo de que os trabalhadores podem empreender um projeto de sociedade muito superior aos modelos impostos pelo capitalismo, livrando a civilização do retrocesso e da barbárie. Os Bolcheviques dirigiram uma revolução social e política derrotando o regime czarista, a capitulação menchevique e o imperialismo em armas. Tudo isto numa nação camponesa, sob as condições mais adversas.

A Revolução Russa, portanto, foi um teste duríssimo para o marxismo enquanto movimento revolucionário, mas este teste foi ainda mais duro para os dirigentes revolucionários russos. Numa arena da luta de classes que exigia militantes extraordinários, estes homens e mulheres não faltaram. Em que outra situação histórica poderiam estar simultaneamente e do mesmo lado da trincheira homens como Plekhanov, Bukharin, Zinoviev, dentre outros? A força e a genialidade de Lênin e Trotsky permite-nos questionar se a revolução teria êxito sem a presença militante de ambos. Permite-nos também pensar que somente as duras condições em que aconteceu a Revolução Russa poderia parir tais espíritos.

Da organização clandestina do partido, passando pela luta constante pela melhor tática para organizar e mobilizar o povo, pela abnegação completa e em todos os terrenos, do estudo teórico mais profundo à obcecada organização na base da sociedade russa, chegando à organização do Exército Vermelho dirigido por Trotsky para defender as fronteiras da revolução, o exemplo daquela geração de revolucionários é, e será sempre, impressionante, emocionante e um referencial militante para as gerações futuras.

Os triunfos da Revolução Russa foram em grande medida ofuscados pela contra-revolução política que representou o surgimento do regime dirigido por Josef Stalin, regime que alimentaria 70 anos depois uma contra-revolução social e a restauração do capitalismo no bloco político hegemonizado pela Rússia.

Com a queda daqueles regimes, o imperialismo buscou construir um fosso separando as gerações futuras dos acúmulos obtidos pelas gerações anteriores na luta anti-capitalista e pelo socialismo, visando interromper um processo histórico de construção de uma sociedade mais avançada. As gerações militantes pós-1989 surgiram sob o impacto desta propaganda imperialista.

Hoje, quase duas décadas nos separam dos eventos que colocaram abaixo os regimes totalitários do Kremlin e dos países do Leste Europeu, mas a propaganda triunfalista da vitória da economia de mercado, do capitalismo sobre o socialismo e do fim da história carece visivelmente de polimento e a ferrugem salta aos olhos. Assim como em 1917, o capitalismo continua oferecendo à humanidade somente a barbárie.

Enquanto a humanidade estiver sendo vítima do capitalismo, que representa miséria, genocídio, guerras e devastação ambiental, o socialismo, que é a mais bela declaração de amor à humanidade, estará na pauta. E é por isso que a Revolução Russa está na pauta hoje, com seus 90 anos sendo comemorados em todo o mundo, com livros, artigos, palestras, seminários, etc. É por isso que seus ensinamentos fundamentais continuam atuais e, mais que isso, são os fios condutores que podem desfazer o hiato da luta socialista e comunista das gerações atuais com o acúmulo imprescindível das gerações passadas.

 *Título do Simpósio realizado na Universidade de São Paulo, entre os dias 12 a 14/11/2007.

 

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