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O Arte Sensu apresenta
visões diferentes sobre um dos marcos mais importantes para os trabalhadores
e intelectuais, a revolução proletário-camponesa ocorrida na Rússia em 1917.
São artigos que instigam o debate, a reflexão sobre a atualidade da
revolução e do socialismo.
O Arte Sensu vai continuar como um espaço alternativo para que reflexões
comprometidas com a luta e com as transformações, tão ausentes nos meios de
comunicação. O objetivo é que as idéias possam fluir e contribuir
efetivamente para que, como os autores disseram, possamos tirar lições.

Revolução
Russa: um breve tempo para uma grande lição
José Henrique Duarte Neto
Doutorando em Educação / UFPE
A Revolução Russa de Outubro de 1917 é sem
dúvidas um dos mais importantes fatos da História. Pela primeira vez, desde
que a humanidade passou a se organizar para garantir a produção e reprodução
de sua existência, de modo a constituir-se em classes sociais, com
interesses antagônicos, baseada em relações sociais marcadas por uma
profunda exploração, foi colocada para os homens, a possibilidade de retirar
as bases a partir das quais as relações de desigualdade se constituíam e se
reproduziam. Estava suprimida a propriedade privada dos meios de produção.
A Revolução Russa é fruto das contradições das relações do capital, em um
mundo subordinado aos interesses dos grandes monopólios. Contradições
sociais e econômicas que jogavam na fome e na miséria milhões de pessoas num
país atrasado, com uma autocracia violenta e perdulária. Envolvida em um
conflito mundial, (1914-1918) que aumentava de forma significativa o enorme
sacrifício do povo, acabou por oferecer as condições políticas para
desencadear um processo irreversível de transformação social. Em torno de um
slogan, - que resumia de forma surpreendente os interesses mais imediatos e
mais sentidos das populações flageladas , pôde aprofundar o grau de
consciência das massas, de modo a compreender que o cumprimento destas
palavras de ordem, só podia ocorrer em um processo revolucionário, dado o
grau de comprometimento e subordinação das classes dirigentes russas ao
capital internacional. A reivindicação girava em torno das singelas
palavras: terra, pão e paz.
É necessário compreender, todavia, que as condições objetivas, não são por
si só, suficientes para operar um processo de transformação na direção em
que ocorreu a revolução. Romper um “elo da cadeia do imperialismo”, como
afirmara um de seus principais dirigentes Lênin -, não é uma tarefa de
natureza meramente econômica, antes, é a exigência de um profundo processo
de apreensão da realidade social e política, em que estava mergulhada a
Rússia. É compreender e dirigir todos os esforços de organização política,
de clareza do movimento, para incitar as massas e atuar pela contradição nos
interesses dos principais envolvidos no processo. Trata-se de tomar como
orientação para intervenção, o que Marx e Engels, no Manifesto Comunista, já
afirmaram: a história de todas as sociedades, desde o advento da propriedade
privada, é a história das lutas de classes.
São enormes as lições que podemos tirar deste marco histórico. A necessária
existência de um nível de organização que esteja consubstanciada em um
partido político; ter como dirigente a classe social historicamente
destituída de qualquer propriedade e criar mecanismos para que esta
mantenha, no processo de tomada do poder e de sua construção, o controle sob
suas mãos. A Revolução Russa nos mostrou que a tomada do poder político é
uma empreitada titânica. Porém, a tarefa mais árdua ainda estava por vir.
Era preciso construir todo um modus vivendi que procurasse corresponder a
esta nova forma de organização da sociedade. Difícil julgar, mas o caminho
do distanciamento entre as instâncias decisórias e aqueles setores sociais
diretamente interessados na construção de uma nova sociedade, aliada ao
isolamento político e econômico internacional, parecem ter sido fundamentais
no processo de dissolução de uma experiência significativa para a
humanidade. Como não há derrota definitiva para o povo, fica para nós a
certeza, com a Revolução Russa, da possibilidade histórica da superação das
relações do capital, que subordina todas as dimensões da vida ao valor de
troca, à mercadoria.
“Revolução
Russa:
uma jovem de 90 Anos”
David Cavalcanti
Mestre em Ciência Política-UFPE e membro do ILAESE (Instituto Latino
Americano de Estudos Socioeconômicos)
Nestes meses de outubro e
novembro, milhares de pessoas em todo o mundo se reuniram para debater os
significados e a herança da Revolução Russa para a história, as organizações
dos trabalhadores e para a esquerda.
Não é à toa que depois de 90 Anos um tema tenha tamanha importância, pois
foi aí que ocorreu a primeira experiência prática de um poder de Estado
organizado pelos trabalhadores. A velha tese defendida pelas diversas
matizes socialistas de que não era necessário uma classe dominante para
gerir a vida social e o poder político saía das páginas dos livros e
executava-se no terreno prático. Toda a teoria socialista construída nos
Séculos XVIII e XIX pelos filósofos, teóricos e militantes concretizou-se
pela primeira vez na Revolução Russa, já que a Comuna de Paris havia sido
uma tentativa localizada e sido esmagada em poucos meses.
A Revolução Russa provou não somente ser possível destruir o capitalismo e
se livrar de sua classe dominante, senão que a experiência socialista
poderia trazer conquistas sociais, civis e humanas superiores à maioria dos
países capitalistas, inclusive os mais desenvolvidos, incluindo no terreno
da democracia quando construiu o poder dos Conselhos (Sovietes) de
operários, camponeses e soldados para controlar a produção, governar as
cidades e os bairros, decidir pela gestão da terra.
A Revolução Russa de 1917 resolveu, por exemplo, o problema do acesso à
terra para cerca de 150 milhões de camponeses, conseguiu o pleno emprego
para a maioria dos trabalhadores, garantiu o acesso à educação, à saúde, à
cultura e a moradia para a maioria da população, trouxe direitos civis e
sociais às mulheres; conquistou, além da soberania nacional para um país
submetido aos desígnios das potências européias, autonomia para as
nacionalidades oprimidas pelo antigo império czarista.
A Revolução elevou a Rússia, um país governado por uma dinastia imperial
absolutista há 300 anos, até então, com uma população de 80% de analfabetos,
para uma potência industrial e científica, capaz de atingir níveis de
desenvolvimento nos patamares dos países da Europa Ocidental e dos Estados
Unidos.
Ocorre que no ano de 2007, há 18 anos da queda do Muro de Berlim, e depois
da restauração do capitalismo em todos os países onde se iniciou a transição
ao socialismo (inclusive Cuba e China) há que se discutir o porquê da
chamada “crise do socialismo”.
Há várias interpretações para tal, não há espaço para se alongar nos limites
deste artigo, mas uma das mais conhecidas em suas diversas versões é que o
capitalismo e a economia de mercado demonstraram sua superioridade.
Ora, se essa versão fosse correta viveríamos num mundo em crescente harmonia
e equilíbrio, mas todos os fatos sociais do pós-Leste Europeu, indicam que
os problemas sociais no mundo aumentaram, basta ver a situação de fome e
miséria na África, América Latina, Ásia e agora também nos países
desenvolvidos. As guerras e as insurreições não só não cessaram, mas
tornaram-se recorrentes no Oriente Médio (Iraque, Afeganistão, Palestina
ocupada, etc) e na América Latina (Bolívia, México, Equador, Argentina,
Colômbia, Venezuela, etc).
Além disso, o Século XXI e a globalização da economia trazem consigo dramas
insolúveis e crescentes até então, como a questão ambiental, o crescente
desemprego estrutural, as migrações massivas e a escassez dos recursos
naturais diante do aumento populacional, a alta concentração de renda onde
apenas 20% da população mundial detêm 80% da renda global, a instabilidade
econômica e financeira, entre outras problemáticas globais.
Se olharmos com mais critério para outros exemplos na história, veremos que
até que o trabalho escravo fosse extinto e repudiado na maioria das
sociedades, ocorreram experiências como a de Spartakus (ac73 ac71) passando
pelas diversas revoltas no mundo como a do Haiti ou de Zumbi no Brasil; até
que se “aceitasse” a reforma agrária como uma solução para a situação social
no campo poderíamos citar centenas de revoltas camponesas do período
medieval até as atuais lutas dos sem terras; se tomarmos o surgimento dos
primeiros comerciantes na Europa do Século XVI passando pelas Revoluções
Inglesas, Francesa e a libertação das 13 Colônias na América do Norte até a
consolidação do capitalismo houve uma dezenas de revoluções e enfrentamentos
liderados pela burguesia.
Neste aspecto, olhando para a história do socialismo e sua primeira
experiência, executada primeira na Rússia e depois em 1/3 da humanidade, em
um curto espaço de tempo, podemos concluir que, diante da história da
civilização humana, estas tentativas parecem ter sido somente o prelúdio de
uma longa jornada.
Por fim, é possível afirmar duas questões de forma categórica, indicadas
pela teoria dos fundadores do socialismo científico e pela experiência da
república dos sovietes em seus primeiros anos: a primeira, é que o projeto
de construção do socialismo, assim como foi e tem sido com o capitalismo, só
poderá ser plenamente exercido se for à escala mundial, e a não experiência
da planificação da economia no passado recente nos países onde o capitalismo
havia atingido seus maiores índices de desenvolvimento para que a riqueza
fosse socializada à escala planetária, gerou o germe do retrocesso das
conquistas derivadas da Revolução Russa: a “nomenclatura” de Estado, a
burocracia governante como um setor social privilegiado e seu correspondente
regime político, a ditadura totalitária do partido único governada pela
cúpula stalinista, oposta pelo vértice aos objetivos dos primeiros anos da
Revolução Russa. A segunda, é que enquanto existir classes sociais haverá
desigualdades sociais. Portanto, acirrados conflitos políticos e sociais
entre as classes para a resolução das diferenças de como deve ser apropriada
a riqueza social vão ser, também no Século XXI, recorrentes,
consequentemente, a possibilidade de novas revoluções não será uma exceção
histórica.
90
anos da Revolução Russa.
Um mundo socialista é possível.*
Edilson Silva
Presidente do PSOL-PE
Estamos completando 90 anos
da Revolução Russa. A data é, antes de tudo, lembrada e comentada amplamente
na sociedade mundial, mostrando a força deste evento histórico. Os anos que
nos separam das batalhas teóricas, políticas e militares dessa revolução
foram de profundas transformações na sociedade mundial, inclusive com a
reforma do capitalismo na própria Rússia.
No entanto, o essencial das lições de outubro sobreviveu a tudo e permanece
como elemento fundamental na busca pela edificação do socialismo, como uma
referência para o conjunto daqueles que lutam contra o capitalismo de forma
coerente. Em tempos de crise de paradigmas para a esquerda socialista
mundial, a Revolução Russa manteve intacto o atestado de vitalidade de suas
idéias: um outro mundo é possível. Mais: um mundo socialista, tanto quanto
necessário, é possível.
A Revolução Russa foi uma espécie de desaguadouro das revoluções burguesas
ocorridas na Inglaterra e França, incapazes de cumprir suas promessas de
fraternidade, solidariedade e igualdade, de um mundo melhor. Ao mesmo tempo
foi um coroamento das movimentações revolucionárias do proletariado de 1848
e 1870, na Alemanha e na França da Comuna de Paris, respectivamente. Por
tudo isso, não é exagero afirmar que a Revolução Russa foi o maior
empreendimento social do século XX.
De um país de maioria camponesa, a Revolução Bolchevique transformou a
Rússia numa potência industrial e econômica. O planejamento econômico levou
a nação Russa a crescer em determinados anos cerca de 1/3 de sua economia.
Uma façanha quase inacreditável, mas absolutamente possível numa sociedade
liberta das amarras do capitalismo. Estes triunfos fizeram-se refletir
positivamente no nível de vida e na cultura da sociedade organizada na
ex-URSS.
Mas a herança da Revolução Russa vai além do seu exemplo de que os
trabalhadores podem empreender um projeto de sociedade muito superior aos
modelos impostos pelo capitalismo, livrando a civilização do retrocesso e da
barbárie. Os Bolcheviques dirigiram uma revolução social e política
derrotando o regime czarista, a capitulação menchevique e o imperialismo em
armas. Tudo isto numa nação camponesa, sob as condições mais adversas.
A Revolução Russa, portanto, foi um teste duríssimo para o marxismo enquanto
movimento revolucionário, mas este teste foi ainda mais duro para os
dirigentes revolucionários russos. Numa arena da luta de classes que exigia
militantes extraordinários, estes homens e mulheres não faltaram. Em que
outra situação histórica poderiam estar simultaneamente e do mesmo lado da
trincheira homens como Plekhanov, Bukharin, Zinoviev, dentre outros? A força
e a genialidade de Lênin e Trotsky permite-nos questionar se a revolução
teria êxito sem a presença militante de ambos. Permite-nos também pensar que
somente as duras condições em que aconteceu a Revolução Russa poderia parir
tais espíritos.
Da organização clandestina do partido, passando pela luta constante pela
melhor tática para organizar e mobilizar o povo, pela abnegação completa e
em todos os terrenos, do estudo teórico mais profundo à obcecada organização
na base da sociedade russa, chegando à organização do Exército Vermelho
dirigido por Trotsky para defender as fronteiras da revolução, o exemplo
daquela geração de revolucionários é, e será sempre, impressionante,
emocionante e um referencial militante para as gerações futuras.
Os triunfos da Revolução Russa foram em grande medida ofuscados pela
contra-revolução política que representou o surgimento do regime dirigido
por Josef Stalin, regime que alimentaria 70 anos depois uma contra-revolução
social e a restauração do capitalismo no bloco político hegemonizado pela
Rússia.
Com a queda daqueles regimes, o imperialismo buscou construir um fosso
separando as gerações futuras dos acúmulos obtidos pelas gerações anteriores
na luta anti-capitalista e pelo socialismo, visando interromper um processo
histórico de construção de uma sociedade mais avançada. As gerações
militantes pós-1989 surgiram sob o impacto desta propaganda imperialista.
Hoje, quase duas décadas nos separam dos eventos que colocaram abaixo os
regimes totalitários do Kremlin e dos países do Leste Europeu, mas a
propaganda triunfalista da vitória da economia de mercado, do capitalismo
sobre o socialismo e do fim da história carece visivelmente de polimento e a
ferrugem salta aos olhos. Assim como em 1917, o capitalismo continua
oferecendo à humanidade somente a barbárie.
Enquanto a humanidade estiver sendo vítima do capitalismo, que representa
miséria, genocídio, guerras e devastação ambiental, o socialismo, que é a
mais bela declaração de amor à humanidade, estará na pauta. E é por isso que
a Revolução Russa está na pauta hoje, com seus 90 anos sendo comemorados em
todo o mundo, com livros, artigos, palestras, seminários, etc. É por isso
que seus ensinamentos fundamentais continuam atuais e, mais que isso, são os
fios condutores que podem desfazer o hiato da luta socialista e comunista
das gerações atuais com o acúmulo imprescindível das gerações passadas.
*Título
do Simpósio realizado na Universidade de São Paulo, entre os dias 12 a
14/11/2007.

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