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Jovens, lazer e consumo de drogas
Roberta Uchôa
Profa. Dra. Departamento de Serviço Social
A sociedade capitalista em que vivemos fundamenta-se em relações
antagônicas, o que quer dizer que o princípio da contradição governa o modo
de pensar e o modo de ser. Formas habituais de sociabilidade, estilos de
vida, realidades e imaginários, têm suas bases sociais e mentais de
referências abaladas pelo novo ciclo de globalização do capitalismo, que
para expandir-se e renovar-se, está sempre a destruir. Como afirma Hobsbawn
(1994), “a destruição do passado ou melhor, dos mecanismos que vinculam
nossa experiência pessoal às das gerações passadas é um dos fenômenos mais
característicos e lúgubres do final do século XX”. É cada vez mais difícil
para os indivíduos reter do passado o que merece ser lembrado no futuro. Por
isso precisamos fazer um esforço para refletir sobre a juventude, o lazer e
as drogas como fenômenos sociais historicamente determinados, que só se
materializam hoje, tal como são observados, porque condições concretas
relações de produção tornaram isso possível ao longo da história.
A juventude é certa fase da vida, quando se saiu da infância e ainda não se
entrou na vida adulta, do casamento, da paternidade, da produção. Esta fase,
de transição à vida adulta, possui distintas características de mudanças que
a faz única e mais difícil do que outras transições. A transição à vida
adulta constitui-se em muitas diferentes transições em um período de tempo
não claramente definido, que varia de acordo com o gênero e a classe social.
A juventude é uma condição provisória, transitória, diferentemente de outras
categorias como o gênero e a classe social, que são mais permanentes. É uma
fase indeterminada cheia de expectativas e ansiedades, que tanto pode se
vislumbrar a reprodução como a mudança social, tanto a subordinação como a
emancipação. Os jovens, como fenômeno social, passaram a ser reconhecidos
pelas sociedades em determinado momento histórico (séculos XVIII e XIX),
dado o seu papel de continuidade ou descontinuidade da vida social. Por isso
se busca exercer um forte controle social sobre suas normas e condutas.
A juventude é vista como ativamente “desviante” ou como passivamente “em
risco” e, às vezes, simultaneamente, das duas formas. Em geral, os homens
jovens são vistos como ativamente desviantes, especialmente se forem da
classe trabalhadora e/ou negros; enquanto as mulheres jovens são percebidas
como passivamente em risco. Mas não se deve generalizar nem atribuir como
essência de uma geração ou de uma condição juvenil os atributos do
conservadorismo e alienação ou os de rebeldia e contestação.
Na contemporaneidade, em tempos neoliberais, as normas de conduta e formas
de controle não são mais as mesmas de gerações passadas. Hoje, para além dos
sistemas fechados de controle social, a exemplo da família, escola, igreja,
comunidade, fábrica, hospital, prisão e Estado, predominam os sistemas de
controle social abertos como os meios de comunicação de massa, o marketing,
a Internet e o mercado, que se tornaram os principais instrumentos de
controle social da “pós-modernidade”. Instrumentos de controle social que
produzem modos de ser, viver e existir, sobretudo para os jovens. Modos
estes de curto prazo, de consumo imediato, sem limites. A família, a escola,
a igreja e o Estado, cada vez mais competem com essas formas de controle
social abertas que produzem padrões de consumo para os jovens que são
extremamente difíceis de serem supridos pelas famílias.
No plano do lazer, é importante destacar que as formas contemporâneas de
ocupação do “tempo livre” estão cada vez mais submetidas ao mercado. O lazer
é um fenômeno humano, uma ferramenta pedagógica lúdica. Mas vivemos uma
época de aceleração do tempo de descartabilidade dos produtos culturais e de
reprodução da mesmice, fenômenos da indústria cultural. A indústria do
entretenimento investe na idéia do lazer baseado no consumo. Há uma
valorização cada vez mais intensa do lazer através do consumo, de objetos e
bens culturais (espetáculos, shows, CDs, filmes e vídeo-games e brinquedos),
de equipamentos e espaços variados (clubes, academias, shopping centers,
parques temáticos) e de serviços (Internet, canais de televisão por
assinatura, viagens e passeios). As políticas públicas de lazer são
precárias ou inexistentes, fazendo com que o “tempo livre” se torne um tempo
de consumo para a indústria do entretenimento em suas mais diversas formas.
O ato de consumir, de consumir qualquer coisa, aparece como essencial, como
saudável, como um desejo quase vital (Padilha, 2006).
A palavra de ordem que organiza a sociedade capitalista é: você pode. Você
merece. Não há limites para você, cliente especial. Todos são estimulados ao
consumo para pagamento parcelado. “Viva a emoção sem suar” diz um anúncio
qualquer. Zeca Pacodinho, Juliana Paes e Wagner Moura convidam a todos a
“beber com moderação” no meio de farras regadas à cerveja. O principal alvo,
mas não o único, das indústrias de entretenimento, de bebidas alcoólicas, de
tabaco e da droga ilícita (tráfico) é o jovem, que tem maior potencial de
aumentar o consumo. Os jovens são mais sensíveis a mensagens que associem o
uso de produtos a uma identidade geracional. O marketing dessas indústrias é
competente e reconhece que há “juventudes”, oferecendo produtos jovens com
diferentes mensagens e imagens. Como podem os jovens não atender a estes
chamados se a ordem é passar dos limites? Os jovens obedecem direitinho! No
fundo, nossos jovens são muito obedientes. Como podem as famílias “vigiar e
punir” numa sociedade sem limites? A autoridade não é um atributo individual
das figuras materna e paterna, do professor ou do sacerdote.
Toda droga, lícita ou ilícita, pode produzir dano. O que varia é o tipo de
dano e o tempo para o dano se manifestar. Os danos dependem do tipo da
droga, freqüência e intensidade de uso. É importante ressaltar que mesmo o
uso ocasional ou fortuito de qualquer droga pode ocasionar danos. Como
modificam o sistema nervoso central, alienando o indivíduo da realidade e
respondendo mais rapidamente ao prazer, as substâncias psicoativas
incapacitam os usuários a alternativas emancipatórias e lúdicas de lazer (Babor
et al., 2003).
Todas as sociedades foram consumidoras de drogas, variando de acordo com a
época, lugar e cultura. Na contemporaneidade, no entanto, este consumo é
estimulado, globalizado, descontextualizado dos rituais familiares,
religiosos, culturais e étnicos. A droga transformou-se em mercadoria que
ocupa posição estratégica na economia mundial. A mesma sociedade capitalista
que produz riqueza, também produz pobreza, alegria e tristeza. O lazer é
fruto da mesma sociedade que aliena o homem de seu trabalho. O mundo em que
vivemos é este, com todas as suas contradições, com todas as suas desordens.
Para além da transgressão, da personalidade auto-destrutiva dos jovens e da
incapacidade de organização da vida diária das famílias, explicações que
depositam nos indivíduos e nas famílias o uso da droga; as drogas devem ser
compreendidas com parte da sociabilidade do capital e da sociabilidade
humana, pois além de ser mercadoria lucrativa para interesses econômicos,
lícitos e ilícitos, servem também de valoração subjetiva de necessidades
humanas. Como afirma Mello e Souza (apud Carneiro, 2005: 09), “no coração da
tragédia, persiste a necessidade humana do prazer e do supérfluo”.
Roberta Uchoa - rsuchoa@uol.com.br |