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Desencanto
Osvaldo Sarmento
Prof. do Departamento de Economia / UFPE

Convém esmiuçar desencantos. Dirá alguém
tratar-se de picuinhas mórbidas para satisfazer espíritos atormentados.
Justifico o contrário, porém. Dos desencantos dos outros podemos tirar
experiências, que, sabiamente manipuladas, evitarão os nossos, prováveis e
futuros.
Talvez, o que aqui se conta, com mais propriedade, deveria ser chamado de
desencanto do desencontro.
Conheceram-se como milhares de criaturas; o acaso jungiu-os no mesmo
ambiente de trabalho, um lugarzinho chato que junta para melhorar os ganhos
de alguém. Na realidade não junta, separa, para sermos bem mais exatos. Pela
mesma razão que aglutina, separa cada um por muros de papéis, máquinas
barulhentas, pastas, arquivos e olhares de traça do chefe; sem contar, é
claro, com as ambições pessoais, de altíssima valorização social. Cada um
por si e Deus por nenhum, eis a máxima brilhante estimulada pelos
sustentáculos de nossa virtuosa sociedade. Um sendo inimigo de todos, na
briguinha safada por um lugar na cadeira mais pomposa do salão e nos olhos
do patrão. Mas, apesar desses obstáculos imperceptíveis, aparentemente
tolos, trançam-se monumentos de amizades e bem querer.
Um papinho ingênuo, na hora do lanche, ou do cafezinho estimulante eficaz
para uma maior produção começa a aproximar aquelas criaturas, que, por uma
lei inexorável da natureza, se atraem mutuamente. Os dias passam-se mais
agradáveis; conversa mais profunda no correr do calendário; diálogo mais
esperado. A todo instante uma consultinha fora de propósito, perante os
olhos dos demais.
Sem se aperceberem, amarram-se num nó cearense. De repente, gostam-se!
Faz-se mil rodeios na tentativa de uma definição. Insinuações, gestos
estudados, olhares fixos nas formas, no infinito das formas, como se
querendo angustiosamente falar pelos olhos. Os lábios parados, uma lástima,
só sabem desejar. E prolonga-se o suplício! Novas insinuações, pausas,
dolorosas pausas, fugas do dizer querido, sobressaltos diante da reação do
outro.
Os dias correm molemente, contrapondo-se à agonia que lhe vai roendo as
forças e a coragem. Em nenhum a atitude rija de dizer o querer e o que lhe
falta. Têm medo de perder aquela mesquinharia de papo inconseqüente aquela
coisinha de nada, comparada ao tudo que poderiam ter. Ele se arrepia, sente
calafrios só de pensar numa realização estúpida, mas não fora de lógica, se
lhe confessar seus anseios.
E mais provável, até, seria essa temível realidade. Ela esperando por uma
definição dele, somente dele. Ser mulher é ter classe, é saber esperar,
embora lhe devore as entranhas o fogo ubíquo do desejo. Ambos, porém, sentem
o pavor de um futuro pequeno, enquanto juntos, pois o desencontro de
pensamento, não lhes pode antever a enorme receptividade a que estão
predispostos.
O impasse continua, a mesma vacilação enche os dias, silenciosamente
dolorosos. Como o fio d'água dum riacho nordestino, em começo de seca, a
esperança se esvai. A cada dia, a cada momentozinho, falece em agoniado
martírio a já minguada esperança.
Surdamente, resolvem desistir. Impacientam-se de esperar um incidente
qualquer, numa época distante, talvez, capaz de desemaranhar toda a trama
urdida pela vacilação. Encontram-se numa estrada poeirenta, batida pelos pés
de tantos casais sem mais segredos. Despedem-se dolorosamente e, pela
primeira vez, o gesto do até nunca pretexta-lhes um demorado aperto de mão.
Numa lágrima indiscreta nadam os olhos da mulher. Uma quentura impertinente
toma conta do homem. No só encontro das mãos, pergunta, com esperança
renascida, a frágil criatura:
- Está febril?
A covardia embaraça-lhe:
- É... Estou febril... Cai em si, porém, e tenta recuperar o terreno perdido
- Que é isso em seus olhos?
O pudor mais uma vez lhe trai o desejo:
- Um cisco, talvez, quem sabe?...
Termina a despedida, dessa vez para sempre. Andam de costas um para o outro,
ele mais abrasado ainda; nela, as gotinhas das lágrimas empapam-se de
poeira.
Convém esmiuçar desencantos!
Por temerem o futuro, restaram-se sem presente.
FIM |