Arte sensu nº 7

Página 2
HOME | ARTESENSU 7
 

Desencanto

Osvaldo Sarmento
Prof. do Departamento de Economia / UFPE

 

Convém esmiuçar desencantos. Dirá alguém tratar-se de picuinhas mórbidas para satisfazer espíritos atormentados. Justifico o contrário, porém. Dos desencantos dos outros podemos tirar experiências, que, sabiamente manipuladas, evitarão os nossos, prováveis e futuros.

Talvez, o que aqui se conta, com mais propriedade, deveria ser chamado de desencanto do desencontro.

Conheceram-se como milhares de criaturas; o acaso jungiu-os no mesmo ambiente de trabalho, um lugarzinho chato que junta para melhorar os ganhos de alguém. Na realidade não junta, separa, para sermos bem mais exatos. Pela mesma razão que aglutina, separa cada um por muros de papéis, máquinas barulhentas, pastas, arquivos e olhares de traça do chefe; sem contar, é claro, com as ambições pessoais, de altíssima valorização social. Cada um por si e Deus por nenhum, eis a máxima brilhante estimulada pelos sustentáculos de nossa virtuosa sociedade. Um sendo inimigo de todos, na briguinha safada por um lugar na cadeira mais pomposa do salão e nos olhos do patrão. Mas, apesar desses obstáculos imperceptíveis, aparentemente tolos, trançam-se monumentos de amizades e bem querer.

Um papinho ingênuo, na hora do lanche, ou do cafezinho estimulante eficaz para uma maior produção começa a aproximar aquelas criaturas, que, por uma lei inexorável da natureza, se atraem mutuamente. Os dias passam-se mais agradáveis; conversa mais profunda no correr do calendário; diálogo mais esperado. A todo instante uma consultinha fora de propósito, perante os olhos dos demais.

Sem se aperceberem, amarram-se num nó cearense. De repente, gostam-se! Faz-se mil rodeios na tentativa de uma definição. Insinuações, gestos estudados, olhares fixos nas formas, no infinito das formas, como se querendo angustiosamente falar pelos olhos. Os lábios parados, uma lástima, só sabem desejar. E prolonga-se o suplício! Novas insinuações, pausas, dolorosas pausas, fugas do dizer querido, sobressaltos diante da reação do outro.

Os dias correm molemente, contrapondo-se à agonia que lhe vai roendo as forças e a coragem. Em nenhum a atitude rija de dizer o querer e o que lhe falta. Têm medo de perder aquela mesquinharia de papo inconseqüente aquela coisinha de nada, comparada ao tudo que poderiam ter. Ele se arrepia, sente calafrios só de pensar numa realização estúpida, mas não fora de lógica, se lhe confessar seus anseios.

E mais provável, até, seria essa temível realidade. Ela esperando por uma definição dele, somente dele. Ser mulher é ter classe, é saber esperar, embora lhe devore as entranhas o fogo ubíquo do desejo. Ambos, porém, sentem o pavor de um futuro pequeno, enquanto juntos, pois o desencontro de pensamento, não lhes pode antever a enorme receptividade a que estão predispostos.

O impasse continua, a mesma vacilação enche os dias, silenciosamente dolorosos. Como o fio d'água dum riacho nordestino, em começo de seca, a esperança se esvai. A cada dia, a cada momentozinho, falece em agoniado martírio a já minguada esperança.

Surdamente, resolvem desistir. Impacientam-se de esperar um incidente qualquer, numa época distante, talvez, capaz de desemaranhar toda a trama urdida pela vacilação. Encontram-se numa estrada poeirenta, batida pelos pés de tantos casais sem mais segredos. Despedem-se dolorosamente e, pela primeira vez, o gesto do até nunca pretexta-lhes um demorado aperto de mão.

Numa lágrima indiscreta nadam os olhos da mulher. Uma quentura impertinente toma conta do homem. No só encontro das mãos, pergunta, com esperança renascida, a frágil criatura:

- Está febril?
A covardia embaraça-lhe:
- É... Estou febril... Cai em si, porém, e tenta recuperar o terreno perdido
- Que é isso em seus olhos?
O pudor mais uma vez lhe trai o desejo:
- Um cisco, talvez, quem sabe?...

Termina a despedida, dessa vez para sempre. Andam de costas um para o outro, ele mais abrasado ainda; nela, as gotinhas das lágrimas empapam-se de poeira.

Convém esmiuçar desencantos!
Por temerem o futuro, restaram-se sem presente.

FIM

 

HOME | ARTESENSU 7