Arte sensu nº 7

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Coisas da Espanha

Elaine Carvalho
Profa. do Departamento de Clínica e Odontologia Preventiva/UFPE

 

Assim que, matuto sofre quando está fora de seu habitat natural...já conto-lhes:

Salamanca é uma cidade que congrega pessoas de muitos países, que vem para cá em busca de pós graduar-se nas diversas áreas do conhecimento ou ainda que vem para arriscar a vida, projetando um futuro de glórias em terra estrangeira.

Por esta peculiar característica, esta cidade é um microcosmo do universo, uma babel, em que convivem turistas alemães, yanques, franceses, imigrantes africanos, asiáticos, leste europeus e latino americanos, estudantes de outras comunidades espanholas, península ibérica, América e gente até da Austrália.

Ao ser tão universal e ao mesmo tempo tão castelhana, reúne por aqui muitos intelectuais, matutuos, loucos, desvairados, solitários, curiosos...todos, em busca de uma certa estabilidade econômica, emocional e intelectual.

Sempre vivi aqui dividindo apartamento e com a sorte de morar em um piso com cinco quartos, em que no mínimo vivem sempre cinco pessoas de diversas nacionalidades, credos, orientações sexuais e religiosas. Esta experiência é muito rica, pois fazemos amigos e aprendemos a arte de tolerar alguns e odiar outros com a mesma intensidade de sentimentos.

Desde que cheguei aqui no apartamento da avenida de Portugal que já encontrei Armando, um angolano, médico formado em Cuba e que também, assim como eu, está sofrendo as angústias de um doutorado pela Universidad de Salamanca.

O Dr, Armando João Nicolau é um sujeito humilde, simples, modesto, tudo de acordo com sua compleição física: baixinho, meio desconfiado e assustado com tudo, mas é pessoa de bem querer ao próximo e de muito sentimento de afeição e assim, nos tornamos bons amigos.

Depois de viver 6 anos em Salamanca, já trabalhando como médico depois de homologar o diploma, Armando resolve aprender a dirigir e comprar um carro, uma viatura, como diria em seu português angolano. Com este carrinho, vai e volta de seu trabalho em Ávila, província vizinha à Salamanca, onde exerce como médico em um centro de saúde.
Na realidade, o danado embora mantenha seu quarto alugado e endereço em Salamanca, vive mesmo é em Ávila, vindo aqui só uma vez ao mês recolher a correspondência, pagar o aluguel e tomar "suas fresquinhas" como carinhosamente apelida as cervejas.

Certa feita, Armando se foi para Ávila com seu carro, chegando aí, estacionou e não moveu mais o carro para nada. Ao cabo de 20 dias, a polícia deu por aquele veículo, com placa de Salamanca, estático há tanto tempo e resolveu investigar quem era o proprietário. Nas investigações, descobriram o nome e endereço do cidadão e a polícia bateu aqui no apartamento, para saber do paradeiro do Sr. João Nicolau. Depois de saber o que a polícia queria, facilitamos o telefone celular de Armando para o agente que nos agradeceu e chamou, querendo apenas saber se estava tudo bem com o carro e perguntar o motivo pelo qual estava a tanto tempo estacionado na mesma rua, sem movimentar-se.

Assim é a Espanha.


Mulher, Que bicho é esse!

Paulo Marcondes
Prof. do Departamento de Ciências Sociais / UFPE

 

Aos olhos do mundo
Dos homens
Dos monges
Era a deusa velada
A noiva de grinalda
A rainha de turbante

E o que dizia aos olhos
O espelho por trás das máscaras?

Que era o que não sabia
Que era o que se queria que fosse
Tanto, que sofria

Comprada a “gato por lebre”
Agridoce
Falsificada

Afinal, só a queriam para nada!
Praquilo tudo a que foi domada

A flor da pele marcada
Pelo silêncio da dor
De amor
Do sexo
Da procriação
Da compreensão
Da conveniência
Do pavor

Era assim que era:
Bibelô
Nunca aguerrida
Até lhe soprarem os ventos
Sopro de vida!

E se despiu
Não mais refém
Dos olhos do mundo
Dos homens
Dos monges

Despiu-se, sim,
De si para si

E o que disso viu?
O desvelado véu
Grinalda atirada ao chão
Rainha enforcada no turbante
Bibelô partido em cacos da
memória

Essa é sua história
Que começa agora
Que é mulher

 

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