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De água Braba - Episódio quatro
Rosane
Lurildo R. Saraiva
Prof.º do Departamento de Medicina
Clínica da UFPE
No ano de 1971, em fins de maio, atravessávamos uma pausa no rigoroso
inverno paulistano. Médico recém-formado, aos 23 anos, fazia Pós-Graduação
em Cardiologia no Serviço do Professor Décourt. Em plena ditadura Médici,
sentiam-se os reflexos da conquista brasileira do Tricampeonato Mundial de
Futebol, fato bem explorado pela propaganda do governo. Rivelino era o Rei
do Corinthians. Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita, de
Elio Petri, nos mostrara a tolerância das leis. Naquele terrível ano de
repressão política, de onde morava, ouvi por vezes, ao longe, rajadas de
metralhadora, como na Pompéia no mês de abril, onde vários “terroristas
foram mortos”, segundo o seu Odair, caseiro onde morava.
Seria prudente atender à convocação que o IV Exército fazia a mim para
apresentação imediata em qualquer guarnição da Arma? Como primeiro aluno da
turma de 1970, recusei-me cumprimentar ao Coronel presente na Mesa condutora
da solenidade de Formatura, quando recebi a Distinção ele representava a
prepotência dos que apearam do poder o Presidente João Goulart, humilhando a
cidadania... Não, não atenderia, afinal já dispunha do meu Certificado de
Reservista legal.

Em uma quinta feira, terminado o “bate-bola” de ECG, que nos deliciava sob a
orientação do Dr. Oswaldo Spiritus, no HC, por volta das quinze horas,
dirijo-me à minha casa, na Rua Arruda Alvim, 110. Ao chegar, seu Odair, com
o típico sotaque do norte paulista, me diz: “Doutor, uma irmã sua chegou do
Recife e está descansando em sua cama”. Subo correndo, com o coração a mil:
qual das irmãs seria, o que teria ocorrido? Ao entrar no quarto, constato
que aquela não era nenhuma das três irmãs. Toco cuidadosamente o seu corpo,
ela se levanta assustada e me diz: “Você é Lurildo?” Logo em seguida, me
entrega uma carta de Jacirema.
- De súbito, reconheço Rosane Rodrigues, em luta clandestina contra a
ditadura: devia ser coisa muito séria -
Leio a carta rapidamente e rasgo. Jacirema, socióloga recifense, me dizia
que o momento era dificílimo, seria preciso amparar a companheira omitiu o
seu nome ocorrera um assalto a um banco em Paulista, no qual tivera
participação, com ferimento grave de um militar. O Delegado Sérgio Fleury
estava no seu encalço: nós sabíamos haver nesse homem o que Guimarães Rosa
chamara “a ruindade nativa”.
Dizendo-se Maria José, ela se encontrava em estado lastimável. Pálida,
magra, esfomeada, me disse: “A minha vida está em suas mãos. Me ajude!” Fui
tomado por um forte sentimento de compaixão, a abracei com uma grande
ternura e lhe falei: “Não se preocupe, confie em mim!”. Ela chorou
silenciosamente, os meus olhos marejaram discretamente. Ela quis tomar
banho, queria comer, desejava roupas íntimas que não possuía: ela queria
viver! Fui à Rua Teodoro Sampaio e adquiri calcinhas, sutiã, toalha,
sabonete e um vestido bem simples. Comeu alucinadamente, há dias que não se
alimentava bem, viera a São Paulo na boléia de um caminhão. Decidi que
iríamos ao apartamento de Leinad e João Bosco Carbogim - ela, cearense de
Crateús, ele, mineiro de Juiz de Fora - os dois haviam trabalhado com Dom
Fragoso, um dos bispos perseguidos pelos militares, e por isto mesmo, haviam
migrado do Ceará para São Paulo. Eram extremamente amigos e leais.
Na esquina da Avenida Paulista com a Rua Peixoto Gomide se localizava o
prédio onde Lê e Bosco residiam, imenso, composto de apartamentos modestos,
mas de localização excelente. Subimos ao 17º andar. Expliquei à Leinad que
Maria José não poderia ficar comigo. Eu lhe pedi que a recebesse, o que logo
aceitou: ela permaneceria os dias necessários, dormindo no sofá da pequena
sala. O seu plano era a fuga para o Chile, que albergava perseguidos
políticos de toda a América Latina no governo Salvador Allende, uma ilha
democrática circundada por violentas ditaduras militares no restante da
América do Sul.
Voltei de ônibus. Tinha plena consciência que eu viveria dias tormentosos na
minha vida. Se caíssemos em mãos do Fleury, eram tortura e morte certa, a
repressão na era Médici não tinha nenhuma compaixão: mas, como abandonar à
própria sorte uma companheira de luta? O compromisso, a solidariedade
humana, a alteridade, onde estariam? No entanto, a certeza do que deveria
fazer não se acompanhava da tranqüilidade espiritual necessária: eu tinha um
enorme medo!
Nos dias seguintes, passei a me comunicar com Leinad, na COSIPA, onde
trabalhava, e de vez em quando ia ao seu apartamento. Mazé, como passamos a
chamá-la, conseguiu pouco a pouco manter contatos como os seus companheiros
de luta. Numa das vezes, pediu-me para apanhar uma quantia em dinheiro no
centro da cidade; concordei, sempre com muito medo. A senha combinada era
“você fuma Hollywood?” O encontro aconteceu dois dias depois, na Praça da
Sé, bem próximo à Catedral. Postei-me em frente a um ponto, previamente
acertado, e de repente avistei Hugo, que conhecia da Escola de Arquitetura,
em Recife. Ele não me reconheceu e junto a mim a fumar, falou a senha.
Recebi um pacote de dinheiro e o coloquei numa bolsa. Fui tomando ônibus
variados como forma de despistar um possível agente policial e entreguei à
noitinha, o dinheiro.
A partir de uma certidão de nascimento falsa, de nome Maria José da Silva,
ela começou a tirar seus documentos e dar início à obtenção do passaporte,
na época, descentralizado, vale dizer, cada Estado o emitia, o que era um
grande erro estratégico da ditadura. Quando parecia ir tudo bem, um policial
civil a interpela: “A senhora é nordestina, pretende viajar para onde?”
“Sim, responde Mazé, para o Chile”. Ele: “Curioso, as pessoas que têm
problemas políticos no Nordeste usam muito este nome da senhora e buscam o
Chile...” “Não, senhor, eu vou conhecer, e se possível, permanecer no país a
estudos, por alguns meses”. O policial não se convenceu de todo e assinalou
o seu requerimento. Mesmo assim, o passaporte foi liberado.
Ela entrou em pânico. À noite, chorando, solicitou que nos protegêssemos a
nós mesmos, ela jamais suportaria torturas comandadas por Fleury, era fraca
neste sentido e poderia declinar nomes: pediu que a perdoássemos. À parte,
eu, Lê e Bosco combinamos um esquema, para tentar evitar a sua queda.
A primeira etapa da estratégia previa que ela embarcaria como uma
“socialite” paulistana. A vários amigos de confiança pedi dinheiro no HC,
Leinad conseguiu um casaco de pele com uma pintora conhecida, o Bosco
aumentou a receita por doações. Dias antes do embarque, fez unhas de pés e
mãos, pintura sofisticada de rosto de véspera, compraram-se peruca, sapatos
e bolsa grã-fina na Rua Augusta. Recordo-me, particularmente, da sua
despedida. Alternando choro com riso, cantou músicas de Luís Gonzaga,
lembrando as raízes garanhuenses; nós comungávamos com o riso ou com o seu
choro. Uma canção particularmente tocante a Mazé, naquele dia, era do Chico
Buarque, “Até pensei”:
“Junto a minha rua havia um bosque, Que um muro alto proibia, Lá todo balão
caía, toda maçã caía, E o dono do bosque nem via...”
Se para ela o futuro era uma incógnita, também para nós que ficávamos as
coisas poderiam não ser fáceis. Hugo, com nome falso, estava conosco e
dormiu ali, naquela noite.
A segunda etapa da estratégia era a de que Mazé iria a Congonhas, sozinha,
em táxi chique. Um olheiro do Hugo - ou ele próprio? - telefonaria para a
Leinad e para mim, ao ramal do ambulatório de Cardiologia. No dia D, fiz
cera. Findo o expediente, as atendentes desceram sozinhas para o almoço, não
entendiam porque eu queria permanecer ali; na expectativa, fiquei manuseando
prontuários médicos de pacientes meus que já atendera, com uma infinita
tensão: Ela cairia? Ela embarcaria? Que fazer em caso da sua queda? Meus
pais o que diriam, poderiam sofrer?
Meio-dia toca o ramal 212: “Embarcou!” Deus, que alívio... Eu saíra de casa
pensativo e temeroso, poderia não voltar mais, inclusive pedi ao colega
Robério na véspera, em tom bem seco: “Se amanhã às 18 horas eu não vier à
sua pensão, avise a Lais em Recife que devo estar preso”. “Por que ?
disse-me ele. “Não posso falar”.
Dias depois, surpreendentemente, recebo do Chile, em envelope rasgado por
agentes da ditadura, um cartão postal dela. A grande imprudência, pelo menos
não se acompanhou de outra, que seria o uso dos nomes reais ou comentários
de natureza política. Chamou-me Lu, tão somente. Nada havia de
comprometedor, ela falava assuntos corriqueiros, sendo possível constatar
solidão e tristeza produzidas pelo exílio. Após a queda de Allende, um amigo
comum me disse que ela quase foi morta no Estádio Nacional, sendo trocada
por um outro no instante em que tiros de metralhadora mataram vários
combatentes, cujos corpos literalmente caiam no leito do rio, que circunda o
estádio de futebol.
Como teria ela escapado? Soube que perseguida por soldados, conseguiu subir
o muro da Embaixada da Dinamarca e ali foi acolhida. Há pouco, em outubro de
2006, uma das suas irmãs, residente nesse país, também perseguida política,
com olhos marejados, em face de detalhes desconhecidos do episódio,
confirmou aspectos do que lhe narrava. Entregou-me livro publicado em
Portugal em 1980, onde Rosane resumiu a sua aventura. Na ida para São Paulo,
de bermuda e sem dinheiro, na boléia do caminhão, o motorista e o ajudante
tentaram estuprá-la, o que não foi concretizado porque, chorando, clamava
por valores éticos ainda existentes nos seus corações. Militava no Partido
Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), com o codinome Juliana da Rocha
e atuava no Ceará. Muito embora suas duas irmãs também pertencessem à mesma
agremiação, nenhuma delas sabia que ações as outras faziam. No exterior,
terminou o curso médico e constituiu família, uma das filhas com o nome
Juliana, o mesmo que ela usara na guerrilha urbana.
Há dois anos, Luciano Siqueira, me falou: “Você protegeu Rosane? Sabia que a
ordem de Fleury era matá-la e a quem estivesse com ela?” Pena que uma
informação tão relevante tenha hoje apenas o valor histórico. Rosane
morreria em Recife de câncer de mama, há nove anos. Não cheguei a vê-la,
apesar de trabalhar no mesmo hospital, o Barão de Lucena, onde ela fazia
quimioterapia.
Ao morrer, quis estar com os seus, na Pátria que a rejeitara.
Texto terminado no dia 11/12/2006, um dia após a morte de Pinochet. |