|


1968 POR ZUENIR VENTURA
Geórgia
Alves
Jornalista
“Não devemos servir de exemplo a
ninguém. Mas podemos servir de lição”. Com essas palavras de Mário de
Andrade, o jornalista Zuenir Ventura abre o primeiro capítulo do livro 1968:
O ano que não terminou. Um livro “que já nasceu um clássico” para Antônio
Houaiss.
Nele, o terceiro dos quatro filhos do pintor Antônio José Ventura, seu Zezé,
e Herina de Araújo, dona Neném, nascido em Além Paraíba, Minas Gerais faz
muito mais que recontar os fatos do período marcado para sempre por esse ano
que não finda e está em cada canto. Logo na apresentação, Heloísa Buarque de
Hollanda faz questão de dizer que o livro é uma prova de que “Zuenir não é
um bom jornalista” e explica:
“Se a qualidade que define um bom jornalista é a objetividade, é exatamente
essa qualificação que definiria, segundo a cartilha das Escolas de
Comunicação, seu valor profissional que se mostra problemática aqui... Já em
termos de aferição, eu não seria tão categórica”.
A dona da casa em que se passou o reveillon daquele ano, escolhido pelo
autor como ponto de partida e que admite por esse motivo ter tido direito
aos seus “quinze minutos de fama que duram até hoje”. Heloísa enfatiza os
aspectos que tornam o livro precioso:
"Nesse quesito, ele é um craque. Em termos de redação, imbatível. Acho que
desde sua estréia, o texto de Zu se apresenta ágil, preciso, econômico,
sedutor. Provavelmente, o que se aprende nos cursos de jornalismo, não leva
a tal resultado. Deve ser talento mesmo. Assim, seu único senão, fica mesmo
na questão da objetividade”, brinca.
Paulo Francis compartilhou da mesma opinião, na oportunidade que teve ainda
em vida de comentar o lançamento há 20 anos. Afirmou se tratar de um livro
que foi “reescrito várias vezes”. Tantas que acaba de ser lançado numa
edição revisada pela Editora Nova Fronteira. Um lançamento duplo que inclui
uma visão atualizada dos rumos da geração da época em outro livro intitulado
1968 : O que fizemos de nós.
Já no primeiro livro Zuenir pondera opinião do amigo e companheiro de cela
até março de 1969 - Hélio Pelegrino alguém que condicionou sua saída da
prisão à do amigo Zuenir, com Aval de Nelson Rodrigues:
“Não confie em ninguém com mais de 30 anos”. Ele mesmo com 44 à época. Para
dizer que não outra maneira de recontar os fatos, senão se questionando. É a
pergunta é o motor da pesquisa e testemunho dos anos de chumbo. Anos
obscurecidos à luz do trabalho incansável de coletar relatos e reuni-los.
Anos tão contrários ao colorido da moda hippie que surge em seguida.
Quarenta anos depois, o arquivista que trabalhava na “Tribuna da Imprensa”
de Carlos Lacerda, que deu ponta pé inicial na carreira ao levar o dedo
indicador quando o próprio dono do jornal entrou na redação, por notícia da
morte de Albert Camus poderia fazer matéria sobre ele. Foi “de grande
coragem levantar o dedo”, admite em sua biografia o próprio Zuenir. Sorte a
nossa. Foi esse dedo que ajudou a construir duas obras primas da literatura
brasileira contemporânea. Reunidas em edição especial.

Poemas
Marcelo
Mário de Melo
Poeta e jornalista
PESSOAS COMO ÁRVORES
A Oscar Niemeyer e a todas as pessoas que se mantêm
de esquerda e socialistas depois dos 60 anos
As árvores quando
jovens
se arriscam
sob o tempo e o vento
podendo se quebrar
e interromper suas vidas.
No desafio de crescer
elas fincam as garras
na terra-mãe
retesam as fibras
resistem a impactos.
Com o passar do tempo
as árvores
criam raízes fundas
e troncos grossos
que sustentam a copa.
Decantando as décadas
o seu ofício é garantir
novas sementes
alimento e sombra
aos viajantes
alargando os esforços juvenis
SINAIS DE PROSSEGUIR
Não chegaremos
ao fim da viagem.
E muitos mapas serão tecidos.
Sobre as cinzas
alguns se refugiam
no baú das cicatrizes.
Outros se desfazem da bagagem
e passa a caminhar
no cordão dos vencedores.
Na janela os velhos sonhos acesos
olhando as estrelas novas
nos convidam
a semear e seguir.
|