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Curiosidades
sobre a vida
cotidiana na Índia: Roberta Uchôa
Professora do Departamento de Serviço Social
da UFPE. Atualmente em pós-doutoramento no
Sangath Centre, Goa, Índia -
ruchoa@uol.com.br
O TRÂNSITO

Imaginem um país com cerca de 01 bilhão e duzentos milhões de habitantes
distribuídos em uma área de cerca de 03 milhões de metros quadrados (menor
do que o Brasil); com um sistema de transporte público urbano pior do que o
de Recife; com um sistema de transporte "alternativo" com micro-ônibus,
mini-vans, motos, lambretas e umas micro-kombis com 03 rodas (tudo
circulando por toda parte e sem qualquer regulação); com uma emergente
classe média comprando carrões esportivos da Honda, Toyota, Hyundai e Tata
(marca de veículo do maior grupo empresarial indiano); com cerca de 52% dos
domicílios com pelo menos uma motocicleta; com pedestres andando e cruzando
as ruas, avenidas e estradas sem calçadas, faixas de pedestres, sinais de
trânsito e passarelas; adicione a tudo isto o "esporte" favorito dos
indianos: buzinar; e, finalmente, acrescente as sagradas vaquinhas andando
livre e mansamente por todos os lugares. Imaginaram? Podem ter certeza: o
trânsito aqui é o inferno na terra!
APOCALIPSE
APÓCRIFO
Elaine Judite de Amorim Carvalho
Professora do Curso de Odontologia da UFPE.
Doutora em Patología Tumoral pela Universidad
De Salamanca, Espanha. - Email:
ejum@uol.com.br
Século XXI, internet de alta velocidade, mapeamento genético, sondas
espaciais, antidepressivos de última geração e em meio a tantas maravilhas
do mundo moderno, eis algumas das barbáries observadas no período de 24h,
apenas na cidade do Recife.
Um quadrúpede agoniza abandonado no meio de uma avenida movimentada da zona
sul depois de haver sido explorado toda sua vida por seu amo. Ao não
responder mais às demandas físicas do trabalho de tração, o animal foi
espancado até cair, jazendo no asfalto, em risco de ser atropelado. A
espécie mais prescindível do planeta é a que mais o maltrata.
Calçadas e passeios públicos como verdadeiras armadilhas para os cidadãos
com seus buracos, lama estagnada pelas últimas chuvas, raízes de árvores que
ocupam toda a passagem, obras cujos construtores não têm o menor respeito
para com os transeuntes, fezes de animais, cascas de frutas. Todos estes
fatores associados ao medo de ser assaltado inviabiliza qualquer
probabilidade de se extrair prazer de uma caminhada salutar, econômica e
ecológica.
Ao redor do Hospital Clínico Universitário da UFPE, barraquinhas de venda de
comidas funcionam sem instalação sanitária básica, com águas servidas
escoando a céu aberto enquanto automóveis com seus aparelhos de sons
potentes disseminam ruído e incultura. Mosquitos tropicais se aproveitam da
situação para sugar a última “misturinha” do sangue daquela comunidade já
tão desesperançada. Cerca de 150 mortes de mulheres por violência de gênero
só em 2008 no Grande Recife, um senhor que se atira do vigésimo quinto andar
de um edifício residencial de luxo das Graças.
Enquanto isso, numa miopia estúpida, seguimos como autônomos deste modelo,
buscando nossas próprias saídas imediatas e individuais, sem nenhuma
preocupação com o porvir, com o meio ambiente, com a manutenção de direitos
básicos que conquistamos às duras lutas...tudo isso parece que já não
importa, mas antes, garantir apenas a sobrevivência e a lei do mais esperto,
nem que seja apenas naquele átimo de segundo.

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