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UMA
VISÃO DE 1968
Carmem
Chaves
Professora do Departamento de Fisiologia e Faemacologia
Vivi e participei de um determinado período do Brasil e acredito que os
eventos políticos do ano de 1968 foram conseqüências da conjuntura de 1964.
Acho que uma parcela dos nascidos no Brasil nas décadas de 1940 e 1950, ao
crescer, foi percebendo e sendo incomodado pela grande desigualdade social
do nosso país. O início da década de 1960 foi um período de movimentos
sociais, marcado pela esperança de diminuir a desigualdade social e do nosso
desvalido povo obter algumas garantias fundamentais. No Recife, as gestões
dos prefeitos Pelópidas Silveira (1955-58) e Miguel Arraes (1959-62)
demonstraram ser possível governar visando à maioria da população,
fundamentando a esperança da concretização de dias melhores. As campanhas
presidenciais e para o governo do Estado de Pernambuco foram de muita
participação, entusiasmo e esperança.
A posse de Arraes como governador de Pernambuco, em 1963, foi um momento
mágico e inesquecível. Iniciam-se governos voltados para o povo, no Brasil e
em alguns estados, como no nosso. Jango promulgou em 1963 o Estatuto do
Trabalhador Rural, Arraes, foi o primeiro a aplicá-lo e era emocionante ver
a alegria nos rostos, os olhos brilhando, os radinhos de pilha, as canetas
nos bolsos das camisas, até, dos trabalhadores analfabetos. Um período de
efervescência. No campo, as Ligas Camponesas, os sindicatos rurais e a
esperança de viabilizar a reforma agrária. Mudanças outras aconteciam em
Pernambuco, a cultura era incentivada através do Movimento de Cultura
Popular, destacando-se o objetivo de diminuir o analfabetismo. Os movimentos
sociais cresciam. Esperanças para muitos, medo em alguns.
Iniciei a faculdade em 1964, junto com 164 colegas, num período pleno de
esperança em dias melhores. Em 13 de março ocorreu, no Rio de Janeiro, o
grande comício pelas Reformas de Base que desencadeou muitas reações
contrárias. Surgiram boatos, via-se o dedo norte-americano em muitos locais
no Recife, havia uma polarização. Falava-se da possibilidade de golpe e
dizia-se que o povo iria resistir, o que não ocorreu em 31 de março de 1964.
A partir daí, o mundo ficou de cabeça para baixo: os preocupados com o
social, de todas as tendências e crenças, religiosas ou não, foram
perseguidos, presos e torturados no Recife, enquanto os individualistas,
gananciosos e delatores eram exaltados e dados como exemplos. Inicia-se um
período de insegurança, medo e tristeza.
A construção da cidadania foi feita, pedra por pedra, até 1968. As pessoas
passaram a se associar onde e como podiam. O movimento estudantil crescia,
os Diretórios estudantis estavam fechados, mas havia eleição para
representante de turma nos cursos e, driblando a censura, o conjunto de
representantes era o Diretório Acadêmico do curso. O DA de Medicina - atual
DAMUC, DA Medicina Umberto Câmara Neto recebeu o nome de um seu grande líder
e um dos “desaparecidos” - era um dos mais mobilizados, lutava, entre outras
coisas, pela inclusão dos excedentes e pela conclusão do Hospital das
Clínicas com apoio moral e, inclusive, financeiro de muitos professores,
enquanto uma minoria nos delatava. Havia o Diretório Central dos Estudantes
da UFPE e, em fins de 1968, foi aceita a proposta de eleição geral e direta
para o DCE e para União dos Estudantes de Pernambuco. Urnas itinerantes
percorreram todas as Escolas e Faculdades da UFPE, UFRPE, Católica, UPE,
FAFIPE e FAFIRE, elegendo os diretores do DCE e UEP. Paralelamente, havia o
movimento hyppie nos EUA e ocorriam manifestações na Europa e no mundo,
particularmente na França, que mostravam, também, a vontade de mudar dos
jovens.
No Brasil ocorriam mudanças em vários setores. Em 1968, o movimento
estudantil promoveu grandes protestos contra o regime, na forma de reuniões,
congressos, comícios e passeatas. Em março, a morte de Edson Luis, no
Restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, resultou em inúmeras manifestações
e passeatas em todo o país. Acreditávamos estar, também, contribuindo para a
melhoria de vida da classe operária. Em julho, no Recife, fizemos um comício
com participação de 10 mil pessoas. Em outubro, ocorreu em Ibiúna, o
Congresso da “ex-UNE” e os quase mil participantes, inclusive eu, foram
“hospedados” no Presídio Tiradentes. O Congresso teve continuidade no
Presídio e, depois em cada Estado, quando a maioria dos estudantes foi solta
e retornou aos seus lares. Pouco depois vem o endurecimento do regime, com o
Ato Institucional número 5 - AI 5, que aprofundou o estado de exceção no
Brasil, com perda total dos direitos, injustiças, cassações, demissões,
perseguições, prisões, torturas e mortes.
Em 1969 veio o Decreto 477, que cassava aos estudantes que se opunham ao
regime, o direito de frequentar aulas. Padre Henrique foi assassinado, seu
enterro mobilizou a cidade do Recife, alunos que compareceram foram
enquadrados no 477 e expulsos das Faculdades. Pouco depois, o presidente da
UEP foi baleado na antiga ponte da Torre (hoje Ponte Engº Candido Pinto de
Melo) e, apesar de paraplégico, concluiu o curso em São Paulo, fez Mestrado,
constituiu família, trabalhou e retornou ao Recife, falecendo em 2002 por
complicações do tiro que seccionou sua medula.
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