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De água Braba - Episódio 5
O Hércules 56 em Recife.
Lurildo R. Saraiva
Prof.º do Departamento de Medicina Clínica da UFPE
O seqüestro do embaixador dos
Estados Unidos, Charles Elbrick, na quinta feira quatro de setembro, foi um
alento para a resistência estudantil no ano dificílimo de 1969. A declaração
da Aliança Nacional Libertadora ALN - e do Movimento Revolucionário Oito de
Outubro - MR8, lida em todos os canais de televisão e reproduzida em
jornais, que saberíamos depois coordenada por Fernando Gabeira, fez o riso
voltar aos nossos rostos, que estavam acuados desde o assassinato do Padre
Henrique em maio, aqui em Recife. Sem meios termos, denunciava as torturas
medievais como norma de governo, falava na caminhada de libertação do nosso
povo, expunha as vísceras da ditadura. E citava, ulteriormente, nomes de
pessoas a serem libertadas, sob pena da execução sumária do embaixador
Elbrick - José Dirceu de Oliveira e Gregório Bezerra se destacavam, como
também o jornalista Flávio Tavares, o Presidente da UNE, Luis Travassos, o
líder estudantil carioca Vladimir Palmeira e o engenheiro Ricardo Zarattini.
No sábado seis, após jantar em casa da minha irmã, no Zumbi, tomei a lotação
da Torre, para assumir o meu plantão no Prontocor, na rua das Creoulas.
Cursava o quinto ano médico e já me decidira, um tanto precocemente, seguir
Cardiologia. Naquela tarde, em todo canto, o assunto dominante era o
seqüestro, a possibilidade de morte dos guerrilheiros ou do próprio
embaixador, a já famosa lista de líderes de oposição ao regime militar,
contendo quinze nomes.
Gregório Bezerra estava preso na Casa da Detenção desde 1964 e sofrera
terríveis torturas. As estações de rádio haviam informado que o avião
Hércules da Aeronáutica pousaria em Recife para apanhá-lo. Às 19 horas,
assumi o plantão com o médico Luis Vilar, que também sabia dos processos que
eu respondera em meados do ano, incurso no AI-5.
O hospital estava calmo na véspera do Dia da Independência. Aproximadamente
às 20 horas, o Dr. Vilar atende a telefonema do Comandante do IV Exército,
pedindo o seu comparecimento à Detenção: Gregório era cardíaco e a inclusão
do seu nome entre os que seriam libertados lhe causara crise de angina, com
dor torácica mais prolongada, havendo necessidade da feitura de
eletrocardiograma e o estudo das suas condições de saúde, em vista do
embarque imediato, com o avião prestes a pousar na Base Aérea. Pedi ao Vilar
para acompanhá-lo, seria uma oportunidade rara de conhecer pessoalmente o
político e ser-lhe útil de alguma forma. Aquiescendo, pediu-me para levar o
eletro Toshiba, mas, quando pronto estava para entrar na ambulância, ele me
admoestou: “você respondeu processo, certamente haverá fotos em jornais, o
que será um passo para incluí-lo em conexão com o Gregório e prisão
subseqüente”. Desisti, entristecido.
O Vilar retornou uma hora depois. Estava tenso. Havia inúmeros jornalistas e
fotógrafos à sua espera e o prédio fora cercado pela Polícia do Exército.
Gregório tivera crise de angina mais prolongada e o seu ECG revelara
importante alteração das ondas T, o que a rigor implicaria em internamento
imediato. Perguntei-lhe o que tinha decidido e ele me adiantou que liberara
o paciente para o embarque. Em vista do meu espanto, de um jovem idealista e
inexperiente de 22 anos, ele me falou: “Você está doido? Se eu impedisse o
embarque, já pensou nas conseqüências, o embaixador seqüestrado, outros
presos no avião, o Governo norte-americano e o mexicano mobilizados, já
pensou na confusão diplomática?” Ele tinha razão. Às 23 horas, o Hércules
partiu com o Gregório e os demais em direção à Belém do Pará, onde o 15º
preso embarcaria, o “Xuxu” ou Mario Zanconatto, médico. Segundo Flávio
Tavares, a ida ao México foi demasiado longa, algo incompreensível mesmo
considerando as condições de vôo na época, como se o Comandante da aeronave
estivesse esperando alguma contra-ordem, vinda da chamada “linha dura” do
Exército, que não engoliu a libertação dos prisioneiros e guardava certa
supremacia sobre o triunvirato tíbio, que governava o país.
No dia seguinte, domingo, como o Vilar previra, na primeira folha do Jornal
do Comércio e do Diário, via-se sua fotografia, atendendo ao Gregório: a
sorte me protegera! E, por uma singularidade estranha, indiretamente vivi o
drama daquele seqüestro, conseqüência do ciclo feroz de combate à ditadura
militar por luta armada. O Hércules chegaria à cidade do México às 18 horas
desse mesmo dia e os jornais estampariam na segunda-feira os rostos
alquebrados, mas felizes, dos quinze prisioneiros políticos, agora
desterrados.
Poucos dias depois, pediram-me para conseguir condução para um grupo de
combatentes em luta clandestina, a uma praia do litoral norte, e mais uma
vez apelei ao colega Roberto Guimarães, o Catatau, de extrema confiança, que
os levou no seu fusca. Meses depois, seriam todos chacinados, sob o comando
do Delegado Sergio Fleury: esse era um tempo particularmente amargo e
sofrido, mas cheio de esperança

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