Arte sensu nº 8

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80 anos de Che

Geórgia Alves
Jornalista

 

História

Ernesto Guevara de la Serna nasceu em 14 de junho de 1928, em Rosário, Argentina. O primeiro dos cinco filhos de Ernesto Lynch e Celia de la Serna y Llosa, família de origem aristocrática, detentora de terras. Descendente do último vice-rei do Peru. Célia ousou casar com um estudante de arquitetura, ainda em 1927, o pai de Che. A família de Célia foi uma das que perdeu a sua riqueza e teve o orgulho ferido. Sentimento que não se manifesta durante a infância do menino de classe média, que nunca se importou muito com política. Mas, com o passar do tempo, o que vai se observar é que a história e a “herança” de Celia vai influenciar o jovem livre e com espírito de liderança. A história acabou tendo papel importante na formação de Che.
Regida por uma mãe culta e educação católica, a casa mantinha-se em constante ambiente formação de esquerda, sempre cercada de mulheres politizadas. Ela mesma é que cuidaria da educação do primogênito que, como os irmãos, tinha acesso a um pai muito amigo dos filhos. Que o seria mais não fosse a distância que lhe imprimia o gosto pela vida boêmia. A paixão por esportes seria uma das principais características repassada ao filho a quem já cedera o mesmo nome.

Antes de alcançar a força de um corpo capaz de correr um campo de futebol, o menino Che sofreu horrores com a insuficiência respiratória. Desde quando nasceu. Aos oito meses e quarenta dias de vida teve pneumonia. E antes mesmo de completar dois anos já sofria sua primeira crise de asma.

A família passou a mudar de endereço, de cidade, em busca de um clima melhor para a saúde do garoto. Foram parar em Alta García, na região serrana de Córdoba, onde finalmente, o menino Che encontra condições ideais para crescer. Mesmo assim, era obrigado a ficar muito em casa, até de cama, por causa da asma. O que lhe ofereceu a chance de ter tempo para gostar de literatura. Che interessou-se por Julio Verne, Baudelaire, Antonio Machado, Cervantes, García Lorca, Pablo Neruda e outros clássicos. Todos passam a fazer parte de seu universo. Todos. E nenhum deles tanto quanto Pablo Neruda, que influenciou sua visão de mundo, da política e da filosofia.
Ernesto era bom aluno e estudou em escola pública. Centros de ensino freqüentados por meninos da cidade e da roça, remediados e pobres. Uma das suas principais características foi sua facilidade de relacionamento com os outros. Uma latente capacidade de liderança. Com uma adolescência fortemente marcada pelo cenário da Guerra Civil Espanhola. Logo em seguida pela segunda Guerra Mundial, quando o pai forma a Ação Argentina, organização antifascista, e inscreve o filho.

Além dos horrores da Guerra, ao morar em Córdoba, Che vai aprender também a jogar rúgbi, tênis, golfe, além de se dedicar à natação. Nessa cidade tornou-se amigo dos irmãos Tomás e Alberto Granado seus companheiros de grandes aventuras. Tempo em que se revelou excelente aluno de Literatura e Filosofia, mas medíocre em matemática e química. Pior ainda em música e física pelo menos pelo que está escrito no boletim da 4ª. Série: “um desastre”.

Melhor foi sua habilidade com o xadrez. Che tornou-se grande enxadrista e brilhou nos tabuleiros da Olimpíada Universitária de 1948. Dois anos antes, em 1946, terminaria os estudos secundários, e a família se mudara para Buenos Aires. Seu intento era de estudar engenharia, mas o luto pela morte da avó levou-o se decidir pela medicina.
Chega o momento de alistar-se no serviço militar obrigatório, mas o histórico de asma vai dispensado. Uma “sorte” para um jovem de família “antiperonista”. Naquela época todo o exército argentino era reduto de Perón.

O mesmo encantamento que levou Célia a se enamorar de Ernesto pai, perpetuou-se nas feições do Ernesto filho. Mas ao contrário do pai que logo firmou laços de família, o filho tornou-se namorador incorrigível atrevido e que se divertia com aventuras românticas. Tinha um modo próprio, um charme largado de ser relaxado com roupas. Usar sempre as camisas fora das calças e os sapatos desamarrados. Che só tinha um fascínio maior que as mulheres. O amor por lugares e o constante desejo por viagens. Esse Amor! o levariam, em 1949, aos 21 anos, a percorrer de mochila nas costas, o norte argentino numa bicicleta motorizada que ele próprio desenhou e construiu. Viagem ilustrada pelo cineasta brasileiro Walter salles, no filme “Diário de Motocicleta”
Encontro com a aventura, alegria de viver e também a morte, Che decidiu-se pela Marinha mercante Argentina, em dezembro de 1950. E depois de viajar em petroleiros e cargueiros por vários países, entre eles o Brasil, vai conhecer a miséria que cerca famílias e companheiros sul-americanos. Em 4 de janeiro de 1952, com 23 anos e apenas dois anos como médico formado “convoca” Alberto Granado, o melhor amigo para uma aventura pela América Latina, 10.000 quilômetros, numa Norton 500. Sua "La Poderosa II". Foram oito meses percorrendo cinco países. Essa aventura consolida o rompimento com os laços nacionais. E uma ligação com o continente. As despesas de viagem são custeadas por trabalho braçal. De carregador a lavador de pratos, serviços como marinheiro e médico. Guiava o aventureiro, a coragem, o espírito de independência, o sentimento de desprezo pelo perigo e uma solidariedade já latente.
A viagem faz brotar sua expressão como um latino-americano e não apenas como argentino. Ao ver o desamparo, os limites atingidos pela exploração, levando povos de diferentes países latino-americanos ter na miséria um traço característico. Vai estruturar ali seu primeiro livro publicado, em 1970. De volta da “aventura”, Che escreveu em seu "Diário de Viagem" e "Já não sou mais o mesmo".

De Machu-Pcchu e à navegação pelo Amazonas de balsa. Até o deserto de Atacama, onde conhece mineiros comunistas e povos indígenas. O diário, reeditado várias vezes vai se tornando o primeiro “recesso editorial” e ponto de partida de uma crescente politização. Ali está o primeiro impulso no sentimento de indignação, o viés, o eletrodo inicial do “choque” diante da pobreza, da injustiça e das arbitrariedades com o continente e seus filhos.

Che guardaria uma semelhança dos bem educados em famílias ricas. O hábito de escrever em diários, que o acompanhou até os últimos dias. Che não abriu mão da sua qualificação como médico. Em agosto de 1952 voltou a Buenos Aires para terminar o curso de medicina e formou-se pela Universidade Nacional de Buenos Aires, em junho de 1953. Tornou-se especialista em alergia e concluiu o doutorado.
Volta à estrada com Calica Ferrer. Trabalha em diversos países para descobrir cura ao mal que o perseguiu desde a infância: a asma. Aos 25 anos não voltará mais para a Argentina.

Che foi para a Venezuela, Bolívia pela economia na passagem do trem para encontrar o amigo Granado. Lá foi trabalhar na pesquisa da lepra. E conheceu o advogado argentino Ricardo Rojo - autor do livro Meu Amigo Che. Na época, Rojo refugiava-se naquele país, por causa da atividade política. Era, como Che, antiperonista, e lhe fez um convite que o marcaria por toda vida: "Para que queres ir a Venezuela, um país que só serve para ganhar dólares? Vem comigo a Guatemala, porque ali vai ter lugar uma verdadeira Revolução Social".

No dia 12 de julho de 1997 é recebido no aeroporto de "San Antônio de Los Baños" por sua família e companheiros. Os restos de Che descansarão temporariamente na sala Granma do Ministério das Forças Armadas. Chegando em outubro a um mausoléu na Praça Ernesto Che Guevara em Santa Clara.

A extinta TV Tupi foi a única emissora de televisão no mundo a filmar o corpo de Che. Por esses acasos da sorte, a equipe estava em Valegrande, em virtude de problemas com o carro que a transportava, a caminho de Camiri, onde haveria o julgamento de Régis Debray, companheiro de Che que havia sido preso quando chegou a notícia da morte de Che. Filmaram a chegada de helicóptero, com o corpo do guerrilheiro amarrado na sua parte exterior. O povo esperava pelo corpo de Che. Seu corpo foi submetido a autópsia num casebre que servia de necrotério ao Hospital Senhor de Malta, em Valegrande.

O último combate

Em novembro de 1966, Che chegou a La Paz, usando documentos falsos e o pseudônimo de Adolfo Mena. Era enviado Especial da OEA para um estudo sobre as Relações Econômicas e Sociais em Campo Boliviano. A credencial foi dada pela Direção Nacional de Informações da Presidência da República. Che se apresentou calvo e sem barba. O roteiro de viagem até La Paz incluiu Praga, Frankfurt, São Paulo e Mato Grosso.

“O movimento guerrilheiro da Bolívia recebeu ajuda financeira, entre outros, de Cuba, Sartre e Bertrand Russel, que recolheram dinheiro nos meios intelectuais. Após onze meses de luta e uma série de peripécias, as guerrilhas foram dizimadas pelos "Boinas Verdes Quíchuas", tropa de elite do exército boliviano, treinada pelos Estados Unidos especialmente para esse fim.”

Che foi ferido na tarde do dia 7 de outubro de 1967, à 13:30, aproximadamente. Atingido em várias partes do corpo, orientou seus captores na colocação de torniquetes para estancar as hemorragias. Em seguida, foi levado para Higueras, lugarejo a 12 km do estreito do Rio Yuro, onde aconteceu sua última batalha. Abandonado sem nenhuma assistência, numa sala vazia da escola local. Após 24 horas e numerosas consultas chega a ordem: Che Guevara deve morrer.

O capitão Gary Salgado, chefe da companhia de rangers do 2º regimento que o capturou, dispara-lhe nas costas uma rajada de metralhadora, de cima para baixo. O Coronel Andrés Selnich, comandante do 3º Grupo Tático, dá-lhe o tiro de misericórdia, com sua pistola 9 mm. A bala atravessa-lhe o coração e o pulmão.

Está morto o símbolo da guerrilha na América Latina, que se achou mais útil ao seu povo servindo à causa da Revolução Internacional que à da Medicina.

"Um Ernesto Che Guevara magro, de barba rala, olhos muito abertos e um sorriso estranho nos lábios mortos", lia-se no Jornal da Tarde de 11 de outubro de 1967.

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