Nova geração de docentes se insere no cenário universitário
Experiência profissional aliada a uma boa didática
e conhecimento sobre novas tecnologias podem superar a titulação acadêmica, até
então imbatível, na definição de contratação das instituições de ensino
superior. Nesse novo cenário, professores cada vez mais jovens ocupam o centro
das salas de aula e geram um novo fenômeno na educação. Docentes com menos
experiência, mas familiaridade com relação ao mercado de trabalho e às novidades
tecnológicas, dividem espaço com profissionais que acumulam anos de docência,
mas, naturalmente, têm maior resistência a mudanças e menos intimidade com
recursos tecnológicos e o mercado de trabalho. Portanto, a questão que se coloca
para as áreas de gestão de recursos humanos das instituições de ensino é: como
agregar, valorizar e aproveitar as melhores características desses dois perfis
de docentes que dividem a atenção dos alunos? "As instituições procuram cada vez
mais profissionais que sejam capazes de auxiliar na produção da aprendizagem,
que sejam verdadeiros facilitadores e tragam consigo uma boa experiência de
mercado, já que as disciplinas também estão mais voltadas para atender às
exigências atuais do próprio mercado", afirma Carlos Afonso Gonçalves da Silva,
diretor de operações acadêmicas da Anhanguera Educacional. "O diletantismo do
passado cedeu espaço para uma carreira bem estruturada que chama a atenção do
mercado e que transformou a atividade de professor universitário em uma opção
economicamente interessante", completa Carlos Afonso, o que explicaria por que
cada vez mais jovens e profissionais liberais estão sendo atraídos para o
magistério de nível superior.
Justamente pela valorização das
instituições de ensino a esse novo perfil de "profissional-docente", um certo
mal-estar pode acometer os corredores das universidades, pelo sentimento de
desvalorização entre os "docentes-profissionais". Lucia Helena da Silva,
diretora administrativa da Etep Faculdades, acostumada a implantar planos de
recursos humanos, admite a dificuldade de colocar novas ideias em prática, mas
aponta alguns caminhos possíveis para driblar resistências. "Em qualquer
instituição de ensino existem estágios diferenciados de públicos, inclusive no
quesito idade e experiência profissional. É preciso ajustarmos sempre o nosso
discurso a cada um desses públicos, ou nunca vamos conseguir quebrar os
paradigmas existentes. A resistência
natural às inovações e mudanças, principalmente da parte dos mais velhos, será
cada vez maior", diz. Marcos Formiga, professor do curso de engenharia da
Universidade de Brasília (UnB) e estudioso do uso de tecnologias educacionais,
diz que o que retarda a evolução do ensino superior é o perfil do professor. "A
maioria não gosta de mudança e se acomoda naquele espaço de manobra. Quando elas
vêm, não reage e é vencido com o tempo." Para ele, muitos ainda se esforçam para
serem tradicionais, têm aversão à tecnologia e impõem aulas muito teóricas.
"Esse método não funciona mais. Acredito que daqui para a frente será
fundamental mudar a atitude dentro da sala de aula. Aprendo diariamente com os
alunos, é uma simbiose coletiva", sugere.
Renato Casagrande, pró-reitor de
graduação, planejamento e avaliação da Universidade Positivo, afirma ser difícil
identificar se essa resistência é aversão ou medo. Na opinião dele, a resposta
pode estar no fato de a maioria dos professores universitários não ter sido
formada para a docência. "Já que aprenderam na prática, muitos docentes tiveram
como modelo os próprios professores." Daí a necessidade de investir em formação
específica para o ensino superior. "É fundamental para haver evolução no
processo de aprendizagem", ressalta. No entanto, há quem discorde dessa disputa.
Josiane Tonelotto, pró-reitora acadêmica da Universidade Anhembi Morumbi,
defende que a concorrência entre os dois perfis profissionais está no imaginário
das pessoas. "O que acontece no dia a dia é mais uma aliança entre os dois
níveis de professores, já que os mais novos buscam a sabedoria dos mais velhos,
enquanto os mais velhos procuram ter um pouco da energia dos mais jovens."
Alguns docentes com décadas de experiência, inclusive, veem como positiva a
disputa entre os professores mais jovens e aqueles com muitos anos de carreira.
"O segredo para a minha energia, apesar dos meus 70 anos, é a minha paixão por
absorver conhecimento e por tentar entender as inquietações e os questionamentos
cada vez maiores dos mais jovens, sejam eles alunos ou meus pares. Eles são mais
instigadores e aí se estabelece uma troca maior entre as nossas gerações", diz
um professor da Universidade de São Paulo, que prefere não ser identificado.
Josiane admite, no entanto, quemudanças
estão ocorrendo, principalmente no perfil do que se espera desses professores.
"A mudança foi muito mais de postura. O novo perfil dos nossos professores exige
que eles tenham uma habilidade a mais, agreguem uma constante atualização
tecnológica e consigam conferir autonomia ao aluno, permitindo que ele seja o
dono do processo de aprendizagem. E nesse processo, os professores mais
experientes levam vantagem sobre os recém-formados. O mesmo acontece naquelas
disciplinas mais densas como metodologia, matemática ou da área de medicina, que
são cheias de regras ou mais quadradas nos seus formatos". Portanto, uma questão
que se torna fundamental é: o que as instituições esperam de seus professores
para agora e para o futuro? O modelo ideal de professor de uma instituição é
definido pela analista de Recursos Humanos do Grupo Kroton, Cristiana Martins
Lopes Castro, como nem muito rigoroso, nem liberal demais. "O ideal é aquele com
bom perfil orientador e capacidade de compartilhar conhecimento, ou seja, o que
deixa o aluno caminhar sozinho." Para Cristiana Castro, é esse perfil
comportamental o que pesa mais hoje na seleção de um novo professor.
Jovens nas particulares - O número
de jovens docentes no Brasil já é maioria entre os 218.823 professores de ensino
superior privado no país. A faixa etária de 30 a 39 anos representa 37% desse
total, enquanto os professores de até 30 anos representam 10%. No setor público,
dos 115.865 professores, a equação se inverte: 32% têm entre 40 e 49 anos, 25%
entre 30 e 39 anos e 6,5% até 30 anos. Em São Paulo, dos 58.903 professores das
instituições de ensino superior privadas no Estado, professores de 30 a 39 anos
representam 34% desse total, e os mais jovens ainda, de até 30 anos, representam
8% do total. O número mostra uma tendência entre as instituições privadas, já
que entre 2006 e 2007 os docentes na faixa de 30 a 39 anos cresceram 3% e, entre
2005 e 2006, o crescimento foi de 4,8%. Já no ensino superior paulista público,
a faixa etária é um pouco mais velha. Docentes de 30 a 39 anos representam 18% e
de até 30 aos 2% do total de 16.617 professores. Os dados são de 2007 e foram
compilados pelo Sistema de Informações do Ensino Superior Particular (Sindata).
Fonte Portal Aprendiz