Diante do problema de expressivas sobras de vagas para o ingresso em
universidades federais, o governo estuda fazer mudanças no processo seletivo
que associa o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ao Sistema de Seleção
Unificada (SiSU), em vigor pela primeira vez no ano letivo de 2010.
Como a oferta de 47,9 mil oportunidades em 51 instituições federais que
adotaram o novo modelo não foi totalmente preenchida em três etapas de
inscrições, o Ministério da Educação (MEC) pretende excluir uma fase da
seleção e antecipar a abertura de lista de espera para o segundo momento da
disputa por um lugar no ensino superior em 2011.
Preferindo não se identificar, especialista em educação que acompanha
reuniões entre autoridades do MEC e reitores revelou ao Valor que o
ministério não descarta impor limitações regionais no ato das inscrições, ou
seja, candidatos do Sudeste não teriam acesso a 100% das vagas
universitárias disponíveis no Norte e Nordeste, e vice-versa. Encontro
programado para amanhã entre MEC e representantes das 51 universidades e
institutos federais que adotaram o Enem como vestibular vai tratar da
polêmica.
De acordo com informações do ministério, o "fenômeno" das sobras de vagas,
apesar da forte demanda, é identificado apenas na segunda etapa de
inscrições no SiSU, quando 550,9 mil candidatos que fizeram o Enem
disputaram 29,2 mil posições, mas ainda assim o sistema registrou 45% de
vagas remanescentes. Na primeira fase, esse índice superou os 60%.
A terceira rodada de inscrições, encerrada à meia-noite de quarta-feira
(3/3), terá entre 280 mil e 300 mil concorrentes para 21,7 mi oportunidades,
adiantou o MEC. A fonte ouvida pelo Valor aposta que as sobras deverão
continuar em torno de 40%, fazendo com que cerca de 13 mil matrículas sejam
feitas por candidatos na lista de espera.
"Consideramos que exista uma elite intelectual do ensino médio, formada por
25 mil, 30 mil alunos. Esses têm ótimo aproveitamento em qualquer
vestibular, Enem, Fuvest, nas principais universidades. Eles se inscrevem no
SiSU, mas acabam se matriculando em outras instituições. Essa é a explicação
para as sobras da primeira etapa", explicou uma fonte do MEC.
"O fenômeno se deu na segunda fase, quando muitos candidatos se inscreveram
sem a intenção de se matricular, seja por status, para agregar no currículo
ou até por brincadeira. Um estudo de mobilidade, que ainda está sendo
analisado e vai ajudar na tomada de decisão, mostra candidato do Rio de
Janeiro se inscrevendo na Federal do Vale do São Francisco. Ele não tinha
nota de corte no Rio, mas tinha em Petrolina, o que não quer dizer que ele
vai sair do Leblon para se matricular lá." Pelo menos 10 mil casos
semelhantes foram identificados no estudo do ministério.
Valmar Corrêa de Andrade, reitor da Universidade Federal Rural de Pernambuco
(UFRPE), argumenta que não há vagas ociosas e defende o modelo de vestibular
via Enem. "Estamos no meio de um processo e a lista de espera faz parte
dele. Não haverá sobra de vagas, porque todos os classificados vão se
matricular. O Enem é o sistema mais justo e correto", reitera.
A UFRPE entrou na segunda fase de inscrições do SiSU com 30% de sobras sobre
as 2.100 vagas oferecidas para 2010. "A Rural está satisfeita, os candidatos
vão entrar devidamente pela listagem", insistiu Andrade, que esteve em
Brasília na quarta-feira para reunião no MEC. "[O processo seletivo Enem/SiSU]
Vai sofrer pequenos ajustes, mas caberá à Secretaria de Ensino Superior do
MEC fazer a avaliação e decidir."
Para o analista de educação consultado pelo Valor, as sobras no nível de 40%
preocupam, uma vez que os vestibulares tradicionais têm percentual médio de
vagas na lista de espera em torno de 4% a 5% para cursos bastante
procurados, como medicina e direito, e 10% para programas de licenciatura.
"Sabemos que o Enem ajuda a promover o fim da exclusão do acesso ao ensino
superior e melhorar a qualidade do médio, mas da maneira como está sendo
colocado vai contra a política de interiorização das universidades, que
deveria valorizar as vagas regionais, por isso o MEC vai ouvir os reitores e
deverá adotar limitações."
Fonte Jornal da Ciência